domingo, 17 de maio de 2020

A Carta de Luciana Vaz de Caminha


Caros amigos,

Faz 9 meses que chegamos à Portugal. Nascemos!
Pode-se dizer que a nossa concepção se deu quando desembarcamos no  aeroporto de Lisboa, atônitos, naquele agosto de 2019. 
De lá pra cá vivemos angústias e alegrias semelhantes às de uma gestação de primeira viagem: É tudo muito novo e dá um medo danado.

Passada a dificuldade natural dos primeiros meses, o ano novo nos trouxe novo ânimo, fizemos muitos planos e projetos de viagem para quando o verão chegasse.
Passamos o inverno hibernados.
A peste chegou antes do verão, destruindo nossos planejamentos e estendendo um isolamento quase "quarentenico" que vivemos no inverno, trancados em casa a maior parte do tempo, já que não estávamos habituados àquele vento gélido que parece mais uma lâmina a cortar os narizes.

Isto por um lado foi bom, pois já estávamos fisiologicamente habituados, o que tornou as coisas mais fáceis quando tivemos que aderir ao isolamento social obrigatório. Mas por outro lado nos trouxe uma sensação de Epitáfio dos Titãs... "Devia ter amado mais... Ter chorado mais... Ter visto o sol nascer...". 

Trazemos conosco saudade do que não vivemos em Portugal, dos lugares que não conhecemos porque deixamos para conhecer em tempos melhores, em dias ensolarados, quando já estivéssemos com as contas mais folgadas, passadas as despesas da viagem.

Agora nos pegamos pensando em quanto tempo teremos que esperar para finalmente conhecer o Porto, o Alentejo, a Serra da Estrela e tantos outros lugares maravilhosos que há para conhecer e ir se apaixonando cada vez mais por Portugal.

Pensamos também se esse tempo futuro que estamos aguardando chegar para retomar nossos planos será como antes ou se, parafraseando Lulu Santos, "Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia..."

Esses dias li em algum lugar que não há nada de bom para se aprender com uma pandemia, que ela se resume ao horror. Cheguei a concordar com isso, por indignação, mas logo voltei atrás. 

Este caos me ensinou uma coisa boa que levarei para o resto da vida: Não deixe para viver no futuro, não espere pelo momento propício pois ele pode nem chegar. 

É certo que viveremos dias melhores que estes, sairemos feridos, mas inteiros. 
A humanidade não vai viver a tão propagada renovação em amor e solidariedade, não espere por isso. Renove-se em si mesmo, reveja seus conceitos, viva mais intensamente, tenha coragem de se reinventar e o mais importante:

Enfrente os dias frios.

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