terça-feira, 13 de novembro de 2012

Bagagem.

"A vida é o que a gente leva dela!"
Há muito tempo ouvi essa frase e ela mexeu comigo. Desde então eu costumo pensar a vida como se ela fosse uma mochila, que tá sempre ali, nas costas da gente acumulando coisas.  
Na mochila da vida as coisas ruins de tão mesquinhas são pequenas, mas paradoxalmente pesadas. Tudo fica tão pesado que dá vontade de desistir da caminhada. A vida vira  um fardo difícil de carregar.  
As coisas boas são como balões de gás, ocupam um espaço enorme, mas são levinhas! E quanto mais se acumulam mais a gente fica leve até quase flutuar.
Tem muita coisa que vai pra mochila que são os outros que colocam. Não tem como evitar a decepção de uma mentira, a inveja, o rancor das pessoas. Mas ainda bem, as coisas boas em sua maior parte são produzidas por nós mesmos. Perdoar, sorrir, amar, dançar!
Que no fim as nossas bagagens sejam enormes, e leves! Que a gente seja capaz de olhar pra trás e dizer: Eu faria tudo outra vez!

*Eita que eu tô toda trabalhada na auto ajuda hoje minha gente!

E a música perfeita pra elevar o espírito une toda a paz que o ruivão me transmite elevada ao cubo em sua versão Hare Krishna!
Nando Reis - Mantra.





domingo, 4 de novembro de 2012

Pretérito.



Arrastou a cadeira e sentou-se. Ajeitou os óculos e passou a mão pelos bolsos da calça até encontrar o lenço, já sabendo que seria de grande serventia. Apoiou o envelope sobre a mesa e olhou-o , quase que sem acreditar no que via. Levantou-se e sentou-se diversas vezes até não restar mais desculpas para levantar-se. Havia uma infinidade de itens naquele pequeno cômodo, mas nada fazia-o desviar o olhar do envelope, aquele papel amarelado pelo tempo trazia lembranças que já não eram bem vindas. 
A primeira lágrima caiu, trazendo com ela todos os rancores guardados durante tantos anos. Sabia que não seria fácil encarar o passado, mas não cometeria a covardia de fugir. Olhava fixamente o envelope tentando se lembrar do rosto dela. Já fazia tanto tempo! A imagem aos poucos foi se formando: os cabelos cor de sol, os olhos grandes, sempre procurando pelo que sua capacidade física de enxergar não conseguia, olhos procurantes, olhos incessantes ele dizia.  Por um momento reviveu a sensação que tinha quando a encontrava, a de que, apesar de poder tocá-la, estava cada vez mais longe. O mundo dela era longínquo, e o dele, enraizado naquele pedaço esquecido de mundo como uma árvore centenária.
O dia em que a perdeu se colocou diante dele em toda a sua substância, seus pensamentos o transportaram para a velha estação de trem e o fizeram sentir novamente o imenso vazio que se formou dentro de sua alma, uma vastidão de saudade pela qual caminharia por longos trinta anos. Lembrou-se de haver sentado e chorado, encolhido, em uma tentativa desesperada de desaparecer dentro de si mesmo.Chorou até não conseguir mais verter um pingo de lágrima, levantou-se, apanhou o chapéu que caíra no chão e tratou de ir viver a vida que ainda lhe restava.
Casou-se pouco tempo após a partida dela. Havia uma urgência em esquecê-la. Cumpriu todos os ritos que um homem de bem deve cumprir para que a vida tenha algum sentido.
A esposa em seu leito de morte lhe contara sobre a carta que havia chegado logo após o casamento. Disse-lhe que, sabendo de quem se tratava a mulher que assinava como remetente, tratou de escondê-la em lugar seguro e confidenciou que nunca soube o real motivo de não tê-la queimado, mas que naquele momento sentia um alívio enorme em poder se redimir entregando-a, ainda que isso não fizesse sentido algum.
Não sentiu rancor, pensou que se fosse ele em seu lugar talvez tivesse feito o mesmo. Beijou-a, se despedindo e agradecendo por tê-lo acompanhado na árdua vida que levaram e lamentou nunca tê-la amado como merecia.
Passou por todos os ritos funerais da esposa com o envelope guardado, sentia um peso enorme ao caminhar, como se estivesse carregando trinta anos no bolso da calça, mas recusou-se a abri-lo enquanto Olga não tivesse partido de vez.
E então estava ali, frente a frente com o passado. Passou a tarde inteira mastigando-o , tentando digerí-lo e pareceu que o tempo havia parado de contar. Ao notar o cair da noite pegou o envelope sobre a mesa e notou que suas mãos, enrugadas e castigadas pelo trabalho já não eram as mesmas que acariciavam o cabelos cor de sol, e mesmo que pudesse ler o que havia na carta, a mulher que a escrevera também não era mais a mesma. Decidiu render a última homenagem à esposa, companheira que à sua maneira o fizera feliz, a mulher de cujo ventre saíra  a sua descendência. 
Levantou-se  da cadeira, acendeu seu velho charuto e usou-o para queimar o envelope sem abrí-lo. Enquanto observava o fogo  percebeu a casa vazia, silenciosa. Parou para pensar na ausência de Olga e no vazio no qual mergulhava novamente.

*Um texto meu. (assino e assumo.)
 
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