domingo, 29 de agosto de 2010

"Purgatório da beleza e do caos"


Que bom seria se o meu Rio de Janeiro fosse apenas a beleza que se vê do alto, nos sobrevoos de helicópteros, nas chegadas e partidas dos aviões.
O Rio visto do alto não mostra suas sórdidas reentrâncias, suas vielas violentas, seus detalhes permanecem escondidos sob a beleza do cartão postal.
Em visão panorâmica o Rio faz jus às letras das bossas de Vinicius e Tom, faz jus ao propagado título de Cidade Maravilhosa, coleciona elogios e tenta envergonhado desviar os olhares mais atentos, para que estes não reparem a sua bagunça.
Que bom seria se aquela mulata magestosa, linda, cintilante, não retornasse ao seu insalubre lar depois do show que deixou extasiados os gringos alienados.
Que bom seria se a orla quente, que de dia abriga crianças, avós, sorrisos, a alegria franca e verdadeira dos farofeiros, o ar blasé das garotas zona-sul, a simpatia famosa mundo afora, não abrigasse à noite a degradação dos corpos, expostos como carne crua, barata, em bancas fétidas de uma feira noturna.
Se víssemos o Rio somente do alto, a Lapa seria só os arcos iluminados, sem o mal cheiro, os prostíbulos, a miséria. A favela seria apenas sua faceta de "orgulho da comunidade" que tentam incutir na mente dos pobres moradores para que estes deixem de implorar por mudanças. O Centro seria apenas seu imperial Teatro Municipal reformado, sem o trânsito caótico, os mendigos, os pivetes, os desempregados de currículo em punho.
Veríamos apenas o sorriso plastificado do sambista, as cores e brilhos da escola de samba, a felicidade construída.
Ver a minha cidade do alto é certeza de espetáculo. Vê-la do chão, conhecê-la, é sentir ânsia por transformá-la, curar suas feridas, é querer dar o ombro pra ajudar a reerguê-la.
Aos que se perguntam porque os céus não apazigam tanto sofrimento, eu tenho uma tese:
O Cristo vê a cidade do alto.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A gaveta.


Aqui na minha casa tem uma estante. Nesta estante tem uma gaveta. Esta gaveta só é aberta para que se jogue coisas dentro dela, raramente é pra pegar alguma coisa, e quando isso tem que ser feito, geralmente é num momento de desespero em que se precisa encontrar alguma coisa urgentemente e já se procurou em todos os cantos da casa sem sucesso.
Lá,(na gaveta) tem de tudo. Documentos importantes, como certidões de casamento, de nascimento, de nada consta, bilhetinhos de amor, certificados de garantia de tudo o que se possa imaginar, desde o nebulizador, até sei lá, a geladeira. Tem 1.478542365144525455 boletos de contas pagas e ainda bem, nehuma sem pagar. Mas tá tudo lá, desorganizado, embolado, sem critérios, sem moral nem compostura.
De quando em vez eu decido: -Vou arrumar esta gaveta! Mas tem sempre algo mais (ou menos) importante pra fazer, e a gaveta vai ficando lá, caótica. Quando eu a abro pra jogar alguma coisa lá dentro, eu faço isso bem rápido, pra que eu não fique muito tempo face to face com a bagunça, e por consequencia não me sinta tão culpada.

Mas o que me deixa mal, nem é a gaveta, nem a sua bagunça, o que me deixa mal é que a gaveta é a parábola da minha vida.
A minha vida ultimamente é o retrato desta bendita gaveta, uma inundação de coisas importantes, de amor, de pendências, de coisas pra organizar, de supérfulos a descartar, de decisões a tomar, de planos a concluir, enfim, eu preciso arrumar a minha gaveta, eu preciso organizar a minha vida.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

No pára-choque do meu caminhão.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Parabéns para mim, nesta data querida.


Gente, fazer vinte e oito anos não é bom, não. Acho que é porque 28 é um número feio, pesado, o som não é bom, a gente fala com voz grave, entonada. Acabou-se a suavidade dos vinte e poucos, o negócio agora é o quase trinta.
Mas o drama é bem menor do que aparenta, Maria do Bairro às vezes baixa aqui e digita no meu lugar.
Ontem à noite, eu estava pensando no dia em que eu fiz quinze anos, no dia não, no ano! Porque eu torci horrores pra que o ano corresse rápido, pra que chegasse logo agosto, pra que eu fizesse logo quinze anos!
Na minha época, quando se tinha catorze anos a gente era mais criança que adolescente, não é como hoje em dia que aos doze já tá todo mundo aí, na vida. A passagem para os quinze era um marco, e nem era por causa da festa, que eu nem tive e que, pelo menos no meu círculo, não era todo mundo que tinha. Era pela intensidade de sentimentos e mudanças internas que esta nova idade nos trazia.
E aí ontem, afundada nos meus pensamentos eu me vi lá, na noite anterior ao dia 19 de agosto de 1997, deitada na cama, pensando na vida, exatamente como eu estava ontem. E por um momento, foi como se estívessemos lado a lado, a Lu de 15 com os questionamentos e planos dela e a Lu de 28 ainda fazendo planos, mas com muito mais certezas que dúvidas.

Aos 15 anos, eu queria conquistar o mundo (na maior vibe Pink e Cérebro).
Aos 28 eu quero um emprego que me permita viajar e conhecer um milésimo desse mundão todo aí.
Aos 15 anos eu dizia que só teria filho depois dos trinta!
Aos 28 eu estou felicíssima porque aos trinta minha filha já vai ter quatro e aí quem sabe, eu vou poder dar um irmãozinho pra ela.
Aos 15 anos eu dizia que neeeeem morta que eu iria casar! Como é que eu ia conquistar o mundo??? (O filho seria produção independente, há)
Aos 28 eu estou casada, feliz e não trocaria isso por nada.
Aos 15 anos eu não sabia ainda que profissão escolher, mas uma coisa era certa, tinha que ser o emprego dos sonhos, pra me deixar rica, bem sucedida e poderosa. E ele estava lá me esperando, bastava que a vida me levasse até ele.
Aos 28, tenho plena consciência de que não vou ficar rica com a profissão que eu escolhi, a menos que eu jogue na mega sena (e ganhe) não vou nadar nas moedinhas igual ao Tio Patinhas. E isso, vejam só, não é nada decepcionante!
Aos 15 anos, no alto da minha embriaguez juvenil, achando que tudo girava ao meu redor, num egocentrismo perfeitamente normal e perdoável para a idade, eu me sentia enorme, eu podia alcançar tudo, eu podia fazer tudo, o mundo era parte de mim.
Aos 28, eu quero fazer tudo o que for possível, eu quero pegar tudo o que meus braços alcançarem e se eu não alcançar, eu peço ajuda. Hoje, minha felicidade depende diretamente da felicidade de outras pessoas, a minha satisfação pessoal depende do bem estar da minha família. Os meus planos ainda são por vezes mirabolantes, quase juvenis, mas hoje eu sei que sou apenas parte do mundo, e que o MEU mundo é do tamanho que ele deve ser.

A propósito, a garotinha gorduxa da foto lá em cima sou eu, e eu não estava com catapora, é que a foto esta envelhecida.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Agora vejam vocês,


Sexta feira foi a comemoração do Dia dos Pais na escolinha da Cecília! Super legal, né? Ótimo, né? Bacana, né?
É. Mas veja bem, eu passei DUAS semanas de adaptação, sofrendo que nem uma condenada, chorando, gritando, esperneando, rolando no chão pra lá e pra cá (menos, Luciana, menos), aguentando o chororô de Cecília. O papai não podia revezar, porque o trabalho é mais hard, não pode faltar e tals, beleza, compreendo.
Mas aí, a primeira vez em que ele vai à escolinha é para participar de uma festinha em sua homenagem! Ganhar presentinho, gravatinha de papel com colagenzinhas "feitas por ela", ouvi-la fazendo gestos e tentando cantar a musiquinha do Papai-Super-Herói! É justo?
Num rompante de invejinha eu até poderia dizer que não, mas é.
Porque gente, essa criatura, não se contentando em ser o melhor marido do mundo, se tornou o melhor pai do mundo!
Eu falo com orgulho que o pai que eu não tive, o pai que eu sempre quis ter, é o pai que eu dei pra minha filha.
Sorte, a gente vê por aqui.

P.s: Não postei no Dia dos Pais porque como vocês puderam perceber, tenho dramas e questões com relação a isso que só serão resolvidas quando eu for rica e puder pagar 20 anos de terapia, então compreendam.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

TPA-Tensão Pré Aniversário


A pessoa fica tristonha, fazendo mil planos pro futuro, achando que não vai dar tempo de fazer nem a metade, fica procurando (e arrancando)cabelos brancos, começa a usar um creme antiidade, corta o cabelo pra ficar mais "muderna", relembra gostos e cheiros da infância, faz planos de plantar uma árvore (o pézinho de feijão da escola não vale, né?!), escrever um livro e fica aliviada porque pelo menos o filho já tem.
É assim que eu estou esta semana. Na TPA.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A quinta vez,

da Cecília na escolinha!

Chegamos ao fim da primeira semana da adaptação, e entre choronas e choroninhas estamos todas salvas!
Na sexta já não havia mais drama, mas eu estava sempre por perto pra deixa-la mais segura, o que parece estar dando certo!
Hoje foi o "dia da frutinha" e eu morri de orgulho, porque enquanto as outras crianças faziam cara de eca, Cecília traçava todas as frutas que passavam na frente dela! rs!
Ah, e a Educação Física????? Fez toda a "série de exercícios", tudo direitinho! E safadinha que é nem estranhou o professor, como fez com a Tia e a auxiliar! Posso-com-isso? Convento das Carmelitas Descalças djá!
Mais a grande lição que eu tiro disso tudo é: Quem trabalha com crianças dessa idade merece o Oscar, O Nobel, O prêmio Jabuti da Literatura, O Emmy, O Gramy, e de quebra uma canonizaçãozinha!
Gente, me coloca numa salinha com quinze criançinhas entre 2 e 3 anos que eu incorporo o 01 e peço pra sair!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A terceira vez,

da Cecília na escolinha.

Pois é, pra Cecília a novidade acabou. A primeira vez foi ótima, a segunda também, mas ontem ela chorou inconsolavelmente. Ela chorou, eu chorei(só um pouquinho) e enfim, submergimos Vila Isabel com o mar de lágrimas que derramamos ontem.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A primeira vez,

da Cecília na escolinha.
(Pois é queridos, vou falar de Cecília de novo. E tem como não falar sempre do maior, mais lindo, eterno, intenso e colorido amor da minha vida?)

Cena 1
Eu entrego Cecília nas mãos da tia (minha mais nova irmã?), falo pra ela: -A mamãe já vooooooltaaaaa. E me debulho em lágrimas.
Cena 2
Já refeita eu sento na cadeirinha reservada para as mães da adptação-(período de uma semana em que a gente fica lá na escola pro caso de a criança espernear clamando por nós)- dou uma olhadela pra dentro da sala e Cecília está lá muito bem e alegre (até demais pro meu gosto) Nessa hora eu penso: Ela nem sentiu a minha faaaaaaltaaaa. E me debulho em lágrimas.
Cena 3
A Coordenadora da escola me oferece um copo de água com açúcar. E digo que não preciiiiiisaaaaa. E me debulho em lágrimas novamente.
Cena 4
Eu dou uns tapas na minha própria cara(quase) pra me lembrar da mulher forte que eu sou, e que devido a isso não posso ficar ali, em pleno pátio de escolinha pagando de desequilibrada. Vou ao banheiro lavo o rosto, sacudo a poeira e dou a volta por cima.
cena 5
Eu volto pra cadeirinha da adaptação, sento lá como se nada tivesse acontecido, tentando me conter, não olhar pra dentro da salinha e transformar o primeiro dia de aula da minha filha num Big Brother do Maternal 1.
Eu não me contenho, e olho no exato momento em que um dos meninos derruba o potinho de giz de cera dela no chão. Propositadamente. Fria e calculadamente. E ainda sai rindo e saltitando (imagina os pais dessa figurinha cruel). Cecília fica lá, olhando pro giz de cera no chão, desolada.
Eu fico lá, do lado de fora, sem poder intervir, dar um peteleco no garoto (quase), devolver o giz pra ela, dizer que está tudo bem e cantar a música do Cocoricó, que faz ela esquecer de qualquer tristeza. E me debulho em lágrimas.

O que me mata com requintes de crueldade é saber que a vida é assim. Sempre haverá alguém que vai derrubar o giz de cera dela, ou mentir pra ela, ou partir seu coração e eu nem sempre vou poder fazer alguma coisa pra que isso não aconteça.
Dios, cómo sufro.
 
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