sábado, 30 de maio de 2020

Manual de Sobre(vivências) - Quarentena Edition



Queridos brasileiros,
As coisas não vão bem por aí né? 
Vocês estão passando por um momento de necessidade de isolamento que já  enfrentamos aqui em Portugal, e eu queria compartilhar o que me ajudou a superar.

Por mais que a gente faça exercícios de resiliência e positividade, por mais que se faça o esforço diário de manter um clima ameno e minimamente prazeroso não se pode negar o óbvio: O isolamento é horrível.
E tem que ser ainda mais clara para os reizinhos da positividade tóxica: é ruim, é uma merda federal, é UÓ.
Pode chorar, pode desabafar, pode ficar nervoso, se revoltar por estar vivendo um momento desse. Isso é perfeitamente normal e compreensível. Não caia na armadilha de ter que achar lado bom em tudo.

Quando a gente lida com as situações enxergando como são de verdade, consegue ter mais controle sobre elas. 
Se conscientizar sobre o quão ruim é uma situação também te deixa com medo e o medo te faz precavido, o que é extremamente importante nesse momento.
Eu tive muito medo, ainda tenho. 
Estar confinada dentro de um apartamento, apavorada por fazer parte do grupo de risco para uma doença desconhecida é uma das experiências mais traumáticas que levarei dessa aventura humana na Terra pela qual estou passando. Bjo Banda Eva!

O mais importante é você não se deixar resumir a isso. Não se resuma a medo e indignação. Saiba aproveitar os momentos de descontração que continuam a existir, apesar de tudo.
Veja beleza nas coisas simples, isso vai te salvar!
Vai te salvar da sensação de não estar vivendo a vida no modo Instagram, cheia de festas, shopping's e qualquer coisa fotografável, como paredes com asas pintadas em que você fica parecendo um anjo baladeiro.

Se apegue a seus amores e seus valores.
E se você for um ser humano legal de verdade, pense sobre o bem que a sua dedicação em se isolar e cumprir as recomendações vai fazer às outras pessoas. Gente como eu, que precisa de uma proteção ainda maior por causa de problemas de saúde ou idade.
A sua decisão de cumprir o isolamento social não salva apenas a sua vida.

Sempre achei que o  Brasil iria demorar mais para acordar e se emocionar diante desta tragédia. 
Somos bombardeados de morte noite e dia mesmo antes da pandemia. A violência cotidiana que nos cerca transformou a morte em algo corriqueiro, estampado em jornais diariamente, passa no horário nobre da tv, bem na hora do jantar.

Precisamos resignificar a morte, aprender novamente a nos emocionar com as perdas sem que seja preciso que ela atinja alguém muito próximo da gente. Todo mundo que morre é o amor da vida de alguém.

Atenha-se à dinâmica do seu lar, controle as coisas que você consegue controlar e se importe menos com as coisas que não pode controlar.
Em termos práticos: Não adianta ficar extremamente preocupado e pesquisando sobre a vacina se você não poderá ajudar na descoberta dela. Deixe isso com os cientistas.

Não fique focado em notícias o tempo todo, isso  faz mal. 
Só que faz ainda mais mal ser alienado. Não saber minimamente o que está acontecendo no seu país te deixa em um limbo em que você está se dedicando para combater algo que você não sabe ao certo a importância que tem e isso te desmotiva a continuar isolado.
Além do mais estamos diante de uma doença nova, várias descobertas são feitas diariamente por milhares de cientistas mundo afora. Novos sintomas, novos tratamentos, o que funciona e principalmente: O que NÃO funciona. ´
É importante estar bem informado.

Criar alguma rotina é importante, mas não precisa ocupar todo o seu dia com afazeres, afinal você está em casa e não num quartel.
Você não precisa se tornar um intelectual gastrônomo sarado durante a quarentena. Relaxa.

Eleja uma série bem grande com várias temporadas para acompanhar, faça noites do cinema em casa, escreva um diário, ou poemas, ou apenas desabafe com o papel, ele é excelente ouvinte: Não te julga, fica caladinho lá, só ouvindo, muito gente boa esse tal de papel. hahaha

Ouça as lives da moda, mas resgate músicas da sua infância e adolescência, você vai se divertir e ficar impressionado com ainda sabe de cor todas aquelas pérolas. Faz aquele desafio no Youtube de quem lembra as músicas mais velhas!

Com um futuro incerto à frente, resgatar suas histórias do passado te faz revivenciar momentos bons, pega aquelas fotos antigas, vai rir das roupas que você usava.

Seja forte, conseguiremos passar por isso. 
Aqui estamos reaprendendo a viver em liberdade, pode ser que as coisas demorem mais por aí, mas mantenha-se firme e vigilante.

Isso vai passar e você terá que estar inteiro para reviver a sua liberdade. 
Ferido, mas inteiro.


P.S: 
Para aqueles que precisam sair de casa e não têm o privilégio de estar isolado: Saia como se estivesse naqueles filmes da Netflix em que o inimigo é invisível. 
Use máscaras, álcool e mantenha distância das pessoas, você é um combatente indo pra guerra todos os dias e os seus cuidados ajudarão a manter a sua família segura.

P.s 2: Sejamos honestos, escolhas politicas recentes trouxeram o Brasil para esta calamidade. 
Todos temos o dever moral de impedir que as próximas eleições estendam essa escuridão na qual o país está mergulhado.

domingo, 24 de maio de 2020

Sobre verões e máscaras




Voltar à tona de pois de 71 dias mergulhada no isolamento social é impactante.
Para mim pelo menos, que pertenço ao grupo de risco e não coloquei o nariz do lado de fora pois não sou boba nem nada.
Mais de dois meses confinada em casa transformou o meu universo em uma coisinha pequenininha e protetora e ter que me aventurar no mundo lá fora foi uma experiência no mínimo assustadora.
Sair e ver que a vida continua, apesar de tudo, me trouxe uma sensação indescritível pois até alguns dias antes de serem informadas as medidas de desconfinamento gradual pelo governo, eu ainda me perguntava se passaria o resto dos meus dias atrás das grades (sempre quis dizer isso hahaha).
Temos saído para passear aos finais de semana, mas apenas para lugares a céu aberto onde se pode cumprir o distanciamento social mais efetivamente.
Ontem fomos a um lugar incrível, a Costa da Caparica, uma praia linda, com pôr do Sol mais lindo que eu já vi. 
A normalidade seria sentarmos em um bar ou restaurante, comer uma coisinha, beber uma cerveja... Mas para nós a normalidade vai demorar muito pra ser restabelecida.
Nós somos uma família muito corajosa para um montão e coisa: A gente troca de bairro, de cidade, de estado, de país, faz mala, desfaz mala, começa projetos, desiste de projetos,  mete as caras, quebra a cara. Recomeça.
Mas quando se fala em doença o buraco é mais embaixo, a gente treme igual vara verde - sim eu uso gíria do século retrasado.
Ontem estávamos na praia de máscara. Acho que nós éramos as únicas pessoas de máscara na praia, sinto que fomos atração e as pessoas devem ter apostado entre si que quando a gente chegasse em casa estaríamos igual ao Kiko do Chaves em Acapulco com a marca da máscara de mergulho na cara.
Mas já tivemos um avanço em relação ao passeio anterior: 
Tiramos a máscara para tirar foto e minha postagem no Instragram não ficou parecendo o Carnaval fora e época do bloco dos mascarados.
Precisamos saber como vai se dar essa volta. O vírus não desapareceu e a vacina ainda não chegou.
Portugal controlou a curva de infecções durante o período do estado de emergência, com medidas de restrição e com as pessoas dentro de casa. O Sistema de Saúde atendeu à demanda que lhe foi imposta. Mas será que com as pessoas nas ruas novamente haverá uma explosão de novos casos? 
Se sim, o sistema de saúde vai aguentar? São muitas perguntas que só o tempo poderá responder.  
As autoridades estão preocupadas em abrir a economia, que já sofreu muito enquanto tudo estava parado, mas também estão preocupadas com as pessoas, estão atentas e acho que não exitarão em fechar tudo novamente se a escolha for salvar vidas ou a economia. Isso é reconfortante..
Acompanhar a situação do Brasil também nos deixa apreensivos demais para chegar a um nível de tranquilidade que nos permita ir à rua sem medo.
Enfim, são muitas emoções.
Ainda temos medo, mas aos poucos também temos coragem e há dias ensolarados lá fora.

domingo, 17 de maio de 2020

A Carta de Luciana Vaz de Caminha


Caros amigos,

Faz 9 meses que chegamos à Portugal. Nascemos!
Pode-se dizer que a nossa concepção se deu quando desembarcamos no  aeroporto de Lisboa, atônitos, naquele agosto de 2019. 
De lá pra cá vivemos angústias e alegrias semelhantes às de uma gestação de primeira viagem: É tudo muito novo e dá um medo danado.

Passada a dificuldade natural dos primeiros meses, o ano novo nos trouxe novo ânimo, fizemos muitos planos e projetos de viagem para quando o verão chegasse.
Passamos o inverno hibernados.
A peste chegou antes do verão, destruindo nossos planejamentos e estendendo um isolamento quase "quarentenico" que vivemos no inverno, trancados em casa a maior parte do tempo, já que não estávamos habituados àquele vento gélido que parece mais uma lâmina a cortar os narizes.

Isto por um lado foi bom, pois já estávamos fisiologicamente habituados, o que tornou as coisas mais fáceis quando tivemos que aderir ao isolamento social obrigatório. Mas por outro lado nos trouxe uma sensação de Epitáfio dos Titãs... "Devia ter amado mais... Ter chorado mais... Ter visto o sol nascer...". 

Trazemos conosco saudade do que não vivemos em Portugal, dos lugares que não conhecemos porque deixamos para conhecer em tempos melhores, em dias ensolarados, quando já estivéssemos com as contas mais folgadas, passadas as despesas da viagem.

Agora nos pegamos pensando em quanto tempo teremos que esperar para finalmente conhecer o Porto, o Alentejo, a Serra da Estrela e tantos outros lugares maravilhosos que há para conhecer e ir se apaixonando cada vez mais por Portugal.

Pensamos também se esse tempo futuro que estamos aguardando chegar para retomar nossos planos será como antes ou se, parafraseando Lulu Santos, "Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia..."

Esses dias li em algum lugar que não há nada de bom para se aprender com uma pandemia, que ela se resume ao horror. Cheguei a concordar com isso, por indignação, mas logo voltei atrás. 

Este caos me ensinou uma coisa boa que levarei para o resto da vida: Não deixe para viver no futuro, não espere pelo momento propício pois ele pode nem chegar. 

É certo que viveremos dias melhores que estes, sairemos feridos, mas inteiros. 
A humanidade não vai viver a tão propagada renovação em amor e solidariedade, não espere por isso. Renove-se em si mesmo, reveja seus conceitos, viva mais intensamente, tenha coragem de se reinventar e o mais importante:

Enfrente os dias frios.

 
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