domingo, 4 de novembro de 2012

Pretérito.



Arrastou a cadeira e sentou-se. Ajeitou os óculos e passou a mão pelos bolsos da calça até encontrar o lenço, já sabendo que seria de grande serventia. Apoiou o envelope sobre a mesa e olhou-o , quase que sem acreditar no que via. Levantou-se e sentou-se diversas vezes até não restar mais desculpas para levantar-se. Havia uma infinidade de itens naquele pequeno cômodo, mas nada fazia-o desviar o olhar do envelope, aquele papel amarelado pelo tempo trazia lembranças que já não eram bem vindas. 
A primeira lágrima caiu, trazendo com ela todos os rancores guardados durante tantos anos. Sabia que não seria fácil encarar o passado, mas não cometeria a covardia de fugir. Olhava fixamente o envelope tentando se lembrar do rosto dela. Já fazia tanto tempo! A imagem aos poucos foi se formando: os cabelos cor de sol, os olhos grandes, sempre procurando pelo que sua capacidade física de enxergar não conseguia, olhos procurantes, olhos incessantes ele dizia.  Por um momento reviveu a sensação que tinha quando a encontrava, a de que, apesar de poder tocá-la, estava cada vez mais longe. O mundo dela era longínquo, e o dele, enraizado naquele pedaço esquecido de mundo como uma árvore centenária.
O dia em que a perdeu se colocou diante dele em toda a sua substância, seus pensamentos o transportaram para a velha estação de trem e o fizeram sentir novamente o imenso vazio que se formou dentro de sua alma, uma vastidão de saudade pela qual caminharia por longos trinta anos. Lembrou-se de haver sentado e chorado, encolhido, em uma tentativa desesperada de desaparecer dentro de si mesmo.Chorou até não conseguir mais verter um pingo de lágrima, levantou-se, apanhou o chapéu que caíra no chão e tratou de ir viver a vida que ainda lhe restava.
Casou-se pouco tempo após a partida dela. Havia uma urgência em esquecê-la. Cumpriu todos os ritos que um homem de bem deve cumprir para que a vida tenha algum sentido.
A esposa em seu leito de morte lhe contara sobre a carta que havia chegado logo após o casamento. Disse-lhe que, sabendo de quem se tratava a mulher que assinava como remetente, tratou de escondê-la em lugar seguro e confidenciou que nunca soube o real motivo de não tê-la queimado, mas que naquele momento sentia um alívio enorme em poder se redimir entregando-a, ainda que isso não fizesse sentido algum.
Não sentiu rancor, pensou que se fosse ele em seu lugar talvez tivesse feito o mesmo. Beijou-a, se despedindo e agradecendo por tê-lo acompanhado na árdua vida que levaram e lamentou nunca tê-la amado como merecia.
Passou por todos os ritos funerais da esposa com o envelope guardado, sentia um peso enorme ao caminhar, como se estivesse carregando trinta anos no bolso da calça, mas recusou-se a abri-lo enquanto Olga não tivesse partido de vez.
E então estava ali, frente a frente com o passado. Passou a tarde inteira mastigando-o , tentando digerí-lo e pareceu que o tempo havia parado de contar. Ao notar o cair da noite pegou o envelope sobre a mesa e notou que suas mãos, enrugadas e castigadas pelo trabalho já não eram as mesmas que acariciavam o cabelos cor de sol, e mesmo que pudesse ler o que havia na carta, a mulher que a escrevera também não era mais a mesma. Decidiu render a última homenagem à esposa, companheira que à sua maneira o fizera feliz, a mulher de cujo ventre saíra  a sua descendência. 
Levantou-se  da cadeira, acendeu seu velho charuto e usou-o para queimar o envelope sem abrí-lo. Enquanto observava o fogo  percebeu a casa vazia, silenciosa. Parou para pensar na ausência de Olga e no vazio no qual mergulhava novamente.

*Um texto meu. (assino e assumo.)

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