domingo, 16 de outubro de 2011

Um conto pra chamar de meu.

Ciranda

Duas da manhã e nada. O chão quase furava de tanto andar de um lado para outro. Unhas não existiam mais e, ao passar pelo reflexo do vidro da porta, percebeu que parecia ter levado um soco em cada olho, de tão escuras as olheiras que lhe emolduravam o olhar. Aquele mesmo olhar pelo qual tanto já havia recebido elogios.
-Marisa, você sorri com os olhos!
Dizia um amigo querido, sempre que a vi sorrir.
-Usa um lápis preto Marisa! Ressalta a beleza dos seus olhos!
Recordou-se daquela amiga que não desgudava dela mas que, se a visse hoje, não a reconheceria.
Ela mesmo não se reconhecia naquele reflexo. Ficou ali parada, tentando se lembrar dos caminhos que a fizeram estar naquele cubículo fétido, com a vida arruinada e o corpo em frangalhos.
A infância fora pobre, mas feliz. Ao lembrar, chegava a sentir os cheiros que lhe traziam tantas boas lembranças:

O aroma da grama pisada, que impreganava na roupa depois de correr pelo quintal, o cheiro da terra molhada que se misturava ao dos bolinhos de chuva que a avó fazia como que um prêmio de consolação, por não poder sair pra brincar em dia chuvoso. Lembrou-se de como gostava de comer por último, e passar os dedos pelo prato ainda sujo pelos restinhos de áçucar e canela.

Lembrou-se das cantigas de roda, que ecoaram pelos seus ouvidos, e quando deu por si estava alí, envolta na magia daquela cantiga.




A menina que ela havia sido apoderara-se daquele corpo maltratado e a fazia planar, girar e cantar em meio aquele caos que a circundava.
-Ciranda cirandinha vamos todos cirandar...♫

Cantava cada vez mais alto, girava cada vez mais rápido na esperança de voltar no tempo com a força do pensamento. Esgotada, entregou-se exausta ao chão, caiu em um pranto intenso e adormeceu.

Despertou abruptamente com o barulho de batidas na porta, tentou se levantar, se recompor. Saiu pisando em cacos de vidro, restos de comida e cinzas de cigarro até alcançar a porta. Ao abrí-la se deparou com aquele rosto conhecido, aquele homem que entrara em sua vida como um amigo quando chegou à cidade, muitas vezes já recebera seu corpo em troca da droga que lhe tomara a vida. Pediu que a esperasse, foi ao quarto, pegou todo o dinheiro que lhe restava, as chaves do apartamento, único bem que possuía e entregou.
-Pode ficar com tudo, isto encerra a minha dívida.
Saiu sem lhar para trás. Perguntada para onde ia respondeu:
-Estou voltando pra casa.

Na janela do ônibus a paisagem de concreto dava lugar à imensidão verde que a levaria de volta. Adormeceu cantarolando.

-Ciranda Cirandinha vamos todos cirandar...♫♫♫

3 comentários:

Patrícia disse...

Adorei o texto. Deu vontade de saber o restante da história (ou seria estória) da Marisa!

Anônimo disse...

Juro que copiei e coloquei no google para saber quem tinha escrito este conto tão cativante pro leitor. Rss! Dai vi cantigas de Machado de Assis, pensei!! Ahh! Explicado. rss!

Mas esqueci dos nossos tempos de poesias e frases...

Você escreve muito bem amor!!!
Publique mais porfavor!

Fábio.

Bia. disse...

Muito bom o texto, escrita cativante ;)

 
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