sábado, 30 de abril de 2011

UPP




Unidade de Polícia Pacificadora.

Esta é a nomenclatura das UPP's, um sitema de policiamento implantado aqui no Rio para, segundo palavras das próprias autoridades, "Reaver o território tomado pelo tráfico".

Pra quem mora no Rio, juntar em uma mesma sigla as palavras polícia e pacificadora seria até bem pouco tempo motivo de piada, levando-se em conta a péssima imagem que a Polícia Militar sempre teve perante a grande maioria dos cidadãos cariocas.


Todo um histórico de corrupção, truculência e violência colaboravam para a manutenção deste stigma. Quantas e quantas vezes já ouvi que a polícia era pior que os bandidos, que havia mais medo dos policiais que da bandidagem. Eu mesma já disse isso inúmeras vezes, o que é muito fácil, quando não se pensa na situação do cara que estava ganhando mal e porcamente para estar onde todos nós venderíamos a mãe (brincadeira mãe!) para não estar: Na frente do tiroteio.


É claro que há toda aquela história de "Mais nada justifica violência", que eu concordo, mas que é reducionista demais.

A primeira UPP foi implantada em 2008 e de lá pra cá muitas outras se instalaram. Acho difícil que ainda não haja nehum rastro do tráfico nos locais onde elas estão, mas muita coisa mudou na vida de milhares de moradores.

Certamente a mudança mais substancial que as UPP's causaram não é a mudança física, de bandidos fugindo e batalhões sendo implantados dentro de comunidades. A maior vitória da polícia carioca ainda está se desenhando. É a mudança que ainda acontece lentamente e depende essencialmente do sucesso das UPP's: O resgate do respeito e da admiração pelo profissional de segurança pública.

É inegável o fato de que a polícia conseguir algum respeito, dentro de comunidades onde entrava pra matar, é uma vitória e tanto.
Alguns vão dizer: "Ah, mas matavam marginais!"

Sim, marginas cujas mães, amigos e familiares moram na comunidade e dos quais muitos dependiam financeiramente. Não é só o marginal lá dentro. Há que se conquistar, ou tentar conquistar, o respeito de toda essa gente.

Eu moro relativamente perto de uma Comunidade recém-pacificada. Se vocês quiserem saber o quanto saguinários eram os bandidos desta comunidade, basta lembrarem do episódio em que eles derrubaram um helicóptero da Polícia, matando dois policiais em um tiroteio que parecia não ter fim.

Quem morava aqui perto, no dia pensou estar na faixa de gaza.

Era uma facção violenta, composta por marginais jovens, incubidos de todo o sentimento de imortalidade que esta fase da vida possui e agravado pelo fato de não terem nenhuma perspectiva, ou porque não dizer vontade, de mudança de vida. Era uma guerra constante, tiroteios, mortes e roubos no entorno da comunidade.

Sobre como está o clima lá dentro, se toda essa utopia está dando certo, só um morador poderia dizer. Vontade não me faltou de ir lá saber, perguntar. Faltou-me coragem, confesso a minha fraqueza.

Mas eu posso falar de um bairro maravilhoso, que perdia a cada dia um pouco do seu encanto por causa da violência constante e que agora voltou a sorrir.

A praça agradável e espaçosa que fica em frente ao morro e que antes vivia triste, vazia, agora fica lotada até altas horas da noite com crianças brincando e velhinhos se exercitando.

O ato de parar o carro em um sinal vermelho ainda gera alguma tensão, mas já não é mais aterrorizante.

Já não andamos na rua sobressaltados, apressados, com a chave do portão em punho.

Tudo está sensivelmente mais calmo, espantosamente calmo.

Esses dias passávamos na rua e avistamos um grupo de policiais andando calmamente, conversando, sorrindo.

Uma cena inusitada, quando penso que antes de a Unidade Pacificadora ser implantada só os víamos de arma em punho, com o semblante pesado de quem é um alvo em potencial.

O fato é que a vida da minha família está muito melhor. E eu desejo do fundo do meu coração que a vida das famílias que moram dentro da comunidade também esteja.

Assim como desejo que tudo isto dê realmente certo, que não seja apenas pra gringo ver na Copa e nas Olímpíadas, que não seja eleitoreiro como tudo o que fazem por aqui.

Que o poder público leve além de segurança, salubridade, educação de qualidade, fontes de renda, dignidade.


Que os sorrisos voltem e permaneçam, em todas as comunidades do Rio de Janeiro.

3 comentários:

Ruiva disse...

Exatamente. Os bandidos sairam daí. E vieram pra onde eu moro. A faixa de gaza agora é aqui. Nao ha tranquilidade, nao posso sair a noite, nem trazer nenhum amigo aqui em casa por medo dele nao sair vivo, ou sair sem o carro, o relogio... Saio pra trabalhar sempre com medo de ser abordada e ter meus bens confiscados por marginais. Criancas morrem dentro da sala de aula por causa dos tiroteios. Fomos todos privados do nosso direito de ir e vir. Esse monstros andam pela rua com armas a mostra, como se fossem os donos do lugar.
As UPPs sao ótimas, mas só pra quem está perto. Porque pro resto do estado é uma boa porcaria. Bandido tem que morrer, Lu. Desculpa falar assim. E eu acho a maior utopia essa coisa toda. É aquela velha máxima de descobrir um santo pra cobrir outro. Um lugar vai voltar a ser bom, e um vai passar a ser horrível. Ainda mais que aqui é mesmo perto da baixada e ninguém quer saber de quem mora aqui. Pra que, né?? Nao é nenhum bairro historico, nem lugar de turismo.. Deixe que os pobres morram.
Eu ainda odeio a polícia fraca da minha cidade. Ainda odeio a politicagem feita pela mídia. E odeio que as pessoas pensem que tudo está bem agora porque temos uma aparente calma com as Upps por ae.

Luciana Matos disse...

Pois é Ruiva, essa é uma questão complexa demais para que uma solução tão óbvia,como é o caso das UPP's fosse realmente definitiva. Mas é inegável que pelo menos alguma coisa mais substancial está sendo feita.
Alguns lugares teem ficado mais violentos, e isto também tem que ser combatido. Eu quis falar sobre as minhas impressões, e elas são muito boas, hoje mesmo fui com Cecília na pracinha pela primeira vez desde que ela nasceu, 2 anos e meio depois.. O que é triste, muito triste, é que eu saiba que existem amigos em situação contrária.
Tomara que um dia isso tudo tenha fim.
Beijos, muitos!

Ruiva disse...

=)

 
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