sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas

Ou simplesmente Cora Coralina.
Uma mulher que escreveu seu primeiro livro aos 76 anos de idade, viveu arrancando poesia das situações mais triviais.
Junto com os famosos doces que suas mãos habilmente fabricavam brotavam poesias igualmente saborosas, sem rebusco literário, sem pretenção acadêmica.
A forma mais linda de poesia, aquela que sai do coração e pousa suave sobre o papel, sem receios, sem limitações, sem clausuras estilísticas ou estéticas.

Deixo vocês com "Todas as vidas", uma preciosidade.

Todas as Vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!

Cora Coralina

2 comentários:

Glória P. disse...

Oi, Lu! Achei seu blog nos comentários do Ela Fala e Sai Andando e adorei seus textos! Muito bonitos e delicados os recortes da sua vida. Também acabo de fazer 28 e este paralelo com nossos 15 anos é de lei. Keep posting! Bjos!

Glória P. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
 
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