quarta-feira, 29 de julho de 2020

Reencontro


Corticóide é tipo o céu e o inferno.
Ao mesmo tempo que é extremamente eficaz pra tratar uma infinidade de doenças, ele te lembra constantemente a causa de você o estar tomando: Você está doente minha filha, segura essa marimba aí!
É um CAMINHÃO de efeitos colaterais. Para as mulheres é ainda mais devastador, porque te pega naquilo que te dói mais: A tua auto estima.
Certeza que os efeitos colaterais foram elaborados pelo teu pior inimigo:
A pele fica uma merda, você incha em lugares estrategicamente terríveis (face, tronco, abdômem), o cabelo cai, sua visão piora, seu sistema emocional entra em colapso. Pois é.
De uma hora pra outra você olha o espelho e não está mais lá. Aquela imagem que está lá não é você. E bate um desespero, porque aquilo não foi um processo, não foi fruto de escolhas suas, é como se você tivesse sido sequestrado e tivessem colocado outra pessoa ali. 
E foi aí que eu descobri uma coisa LINDA:
Eu não sou a imagem que aparece no espelho! 
No meio do caos, eu me reencontrei.
Diante de tudo o que sou, a imagem é o que menos importa, porque a minha essência era quem me mostrava dia após dia durante essa luta que eu estava lá, intacta.
Eu sou os livros que li, as músicas que ouvi, as milhares de páginas que já escrevi e que ninguém leu.
Eu sou a minha memória, reminiscências de momentos que luto para estarem sempre frescos e outros que gostaria de esquecer.
Eu sou todos os rostos afetuosos que me aparecem quando fecho os olhos, meus amigos, meus familiares, aqueles conhecidos que ainda que tenham passado rápido pela minha vida, levaram um pouco de mim, deixaram um pouco de si. 
Eu sou o amor avassalador da maternidade e o tanto que os meus filhos me transformaram.
Eu sou a minha coragem de mudar de país e o meu medo de dormir no escuro.
Eu sou aquela menina que amadureceu cedo demais, por causa das durezas da vida.
Eu sou a minha vontade de mudar o mundo e a minha indignação diante das injustiças.
Eu sou os amores que tive e aquele que escolhi pra envelhecer e ver os netos correrem pela casa.
Eu sou tanta coisa, milhares de fragmentos que se juntavam e se transformavam na Luciana que eu precisava enxergar no espelho todos os dias pela manhã.

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