segunda-feira, 23 de setembro de 2019
A dor e suas várias faces.
A semana que se passou foi dolorida. Entende-se aqui por dor aquilo que, fisica ou emocionalmente, adoece e inquieta a alma.
João esteve doente.
Há aqui em Portugal sistema público de saúde que funciona, apesar de não ser perfeito, mas funciona de um jeito diferente do que eu estava habituada.
Era segunda feira e o pequeno começava a dar sinais de que não estava bem. Dois anos vivendo a maternidade em tempo integral me faz perceber e "diagnosticar" muita coisa pelos primeiros sinais.
Febre alta e recusa de alimentação sem sinais de gripe: A bendita garganta.
No Brasil eu teria informado à pediatra pelo whatsapp e, caso ela não pudesse atendê-lo, eu o levaria a uma emergência e sairia de lá com a indefectível prescrição de um antibiotico.
Há pressa em sanar a dor. A dor não pode doer.
Chegamos à emergência do Hospital de Cascais na quarta feira, João estava há 2 dias com febre. Houve muita espera para sermos atendidos, espera que foi compensada pelo excelente atendimento que tivemos. Consulta cuidadosa e demorada. A medica me mostrou a garganta dele, muito inchada, vermelha e com algumas plaquinhas e me disse:
- Mãe, pode não ser bacteriano, medique a febre por 3 dias e retorne se não melhorar.
Saí arrasada, meu filho iria sentir muita dor. E sentiu. E melhorou.
Era viral.
Quantos antibióticos meus filhos já tomaram sem necessidade? Dificil calcular.
Essa foi a dor fisica da qual falei. Dor de filho a gente sente junto. As noites em claro, a vigília, a preocupação, o colo ininterrupto, tudo dói.
Mas a alma doeu muito essa semana também.
Eu recebi de longe a noticia da morte da oitava criança por bala perdida(?) no Rio de Janeiro.
Crianças quem morrem em casa, na rua, a caminho da escola, a qualquer hora do dia. Essas mortes são fruto da política da violência que se instalou no Brasil.
Ágatha morreu dentro de uma Kombi na favela, fosse dentro de uma Land Rover em Ipanema o país teria vindo abaixo. Seriam revistas as normas, as regras, os procedimentos, a forma.
Mas não. O contador de crianças pobres baleadas no Rio de janeiro vai continuar rodando.
Eu sinto dor por essas famílias, mas eu não sei qual é a dor dessas famílias. Só quem tem o coração dilacerado pela morte de um filho é capaz de saber.
Bolsonaro, o presidente. Witzel, o governador. Ambos foram eleitos com a promessa de "metralhar as favelas" "atirar primeiro e perguntar depois" "dar carta branca para a polícia matar".
As pessoas que os elegeram bem sabem que nas favelas há crianças. Muitas.
Dito isto: Quantas pessoas ajudaram a puxar os gatilhos que já mataram oito crianças em 2019 no Rio de Janeiro?
É difícil olhar pro meu país de longe. E dói.
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
"- Vocês vão ficar aí pra sempre?"
Essa semana milhares de DUAS pessoas me fizeram a pergunta que intitula esse post, então resolvi escrever sobre, porque se não for pra superlativar a sua importância perante o mundo a leonina nem sai de casa!
Sem fazer ideia do que responder falei que "Pra sempre é tempo demais".
A decisão de ir morar em outro país não é nada fácil, é muito custoso e difícil colocar a vida na mala e dizer adeus pra sua história.
Até chegarmos ao "sim" foram noites em claro, conversando, pensando, concluindo, duvidando, sonhando, chorando...
Era a situação do Brasil e a TREVA POLÍTICA da extrema direita que se abateu sobre nós dizendo -"Vai!" e a saudade da família e dos amigos dizendo "-Fica!", ganhar em Euro dizendo "-Vai!" e o medo de as crianças não se adaptarem dizendo "-Fica!". Foi um carrossel de emoções!
Imigrar é nascer de novo.
Essa coisa de nascer de novo geralmente tem um significado muito bom, pois significa que você escapou por pouco de alguma coisa muito ruim.
Mas se você pudesse fazer uma terapia de regressão pro exato momento em que veio ao mundo e teve que lidar com o novo, o desconhecido e o medo, essa expressão provavelmente teria algum outro significado.
Nascer de novo te abre um leque de infinitas possibilidades boas, ao mesmo tempo que te obriga a reescrever toda uma gama de histórias que vai desde o seu vizinho saber que você é uma pessoa legal e honesta, até a construção de relações de amizade que vão te fazer se sentir melhor na terra nova.
Você tem que dizer pro governo que você e sua família existem, lidar com toda a burocracia de ter que existir de novo perante a lei sem aquela etapa em que os seus pais fazem tudo por você.
Estamos falando aqui de uma historiadora perdendo a paciência com tanto documento e papel, não é pouca coisa não!
Em contrapartida no meio disso tudo há tantas coisas para ver, tantas coisas lindas pra conhecer! Paisagens, lugares, pessoas, História, arquitetura, cultura...
A gente fica extasiado! Parece a família buscapé chegando em Bervely Hills!
Estamos gostando muito, de verdade, mas eu ainda considero que estamos na fase do deslumbre, da lua de mel. Só o tempo dirá...
O tempo que ficaremos depende de muitos fatores, alguns bem concretos como a manutenção do posto de trabalho que nos ofereça condições de viver bem e um tráfico internacional eficiente do meu creme de pentear. Outros bem abstratos como a adaptação à cultura, ao inverno, à escola....
Antes de virmos combinamos fazer uma experiência de um ano letivo (sim, nosso tempo é o tempo das crianças), a partir daí reavaliaremos e decidiremos com mais clareza.
Por ora nosso cantinho está guardado no Brasil, fechadinho, bonitinho, no aguardo das cenas dos próximos capítulos.
Enfim, essa enrolação toda pra dizer que a gente vai fazer o Zeca e deixar a vida européia nos levar e que pra quem já teve a coragem de vir, a coragem de voltar é fichinha!
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
Avance Uma Casa.
Resolvemos dar uma segunda chance para Portugal, afinal não estávamos dispostos a gastar quase 10 mil bolsoréis novamente em passagens pra voltar pra casa.
A segunda chance foi a empresa de aluguel de carros e fomos tratados como os nobres que somos o que já nos trouxe novo ânimo!
Enfiamos nossas 348 malas e 2 crianças dentro de um Peugeot e partimos em busca de um teto e um banho.
Havíamos reservado 15 dias de hospedagem pelo Airbnb e estávamos com as visitas aos imóveis para aluguel todas marcadas. Tudo cronometrado, se uma peça saísse do lugar era ponte, mas pelo menos seria uma ponte européia. kkkkk (rindo de nervoso)
Chegamos ao apartamento da agradável Senhora Anabela, que nos recebeu muito bem e nos mostrou tudo. Uma decoração clássica, bem portuguesa, bem antiga e pareceu que a gente estava entrando no túnel do tempo. Cecilia, geração milenial, quase teve um troço mas se conteve e fingiu costume, inclusive graças a Deus.
Primeiro plot twist: Senhora Anabela provavelmente dará aula para Cecilia pois é professora da escola (pública, eu ouvi um amém?) onde ela vai estudar.
Iniciamos as visitas aos imóveis com a ajuda de um consultor imobiliário que já nos auxiliava desde que estávamos no Brasil e fez as marcações, o Nelson, pessoa nota 10 que se colocar umas asinhas nele vira um anjo da guarda!
Se não fosse o Nelson nos ajudando a resolver essa questão do aluguel em tempo recorde (nem ele acreditou na sorte que demos) a ponte européia teria sido uma realidade.
MÃE ESSE NEGOCIO DE PONTE É BRINCADEIRA TÁ!!??
No último dia do airbnb assinamos o contrato de aluguel e pegamos as chaves do apartamento definitivo. Parecia um jogo de xadrez, a gente quase tendo um pirepaque pra mover a ultima peça do jogo e tendo que teatralizar para as crianças que estávamos tão plenos quanto as pessoas do folheto das testemunhas de jeová.
Conseguimos um apartamento semi mobiliado (que sorte! - Isso é MUITO raro), conseguimos a dispensa do fiador (que sorte! - sorte nesse caso foi pagamento adiantado de vários aluguéis mais um contrato de trabalho em mãos, mais uma família fofa) e conseguimos pegar as chaves antes do início da vigência do contrato (que sorte! - Sorte nesse caso foi a lábia da mamãe aqui).
Eu nem consigo acreditar que paralelamente a isso ainda tratávamos de conseguir os primeiros documentos e ainda sobrava tempo para turistar! Desafiamos todos os parâmetros de espaço-tempo da Física.
Vencemos a primeira etapa. Ainda restam muitas.
Cecília e João estão prestes a iniciar o ano letivo, que aqui começa agora em meados de setembro e se der tudo certo, ganhamos muitas vidas no jogo da imigração!
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