domingo, 9 de agosto de 2020

Nome do Pai


Todos os anos, no dia dos pais eu homenageava a minha mãe, a tal da pãe, aquela mulher guerreira que criou duas filhas sozinha, aos trancos e barrancos, sob os solavancos da vida.
Eu sempre achei que isso de certa forma substituísse o fato não poder homenagear um pai que não tive. 
Até o ano passado eu estava de boas esse assunto, mas aí entrou o narrador:
"-Mas este é o ultimo ano em que ela fará isso, pois um texto vai problematizar a cabeça dessa pobre moça"

O tal do texto. Ele dizia o seguinte: Não romantize o fato de que a tua mãe foi abandonada, não romantize o fato de que a tua mãe precisou abrir mão de boa parte da vida pra cuidar sozinha de você. Não ter a ajuda do teu pai pra te criar não é um prêmio, foi sofrido. Aprenda a encarar o fato de que você cresceu sem pai.

Na verdade, relembrando o passado, quando criança não tinha essa história de orgulho da "pãe" não, era chato pra caramba não ter pai no dia da festinha da escola.
No inicio a minha mãe ia, e pra mim era até pior. Ficava aquela coisa "-Olha lá coitada, não tem pai"
E pra quem eu ia dar aquela bendita gravata de papel?
Quando passou essa fase eu dei graças a Deus.

Mas aí a gente vai crescendo, vai vendo como a vida é dura, como o trabalho é cansativo e começa a prestar a atenção no sofrimento da mãe. E começa a bater aquela indignação: -Mas que porcaria de mundo é esse que um sujeito resolve simplesmente fugir da sua responsabilidade?
E a mãe solo vira heroína. E a heroína merece ser homenageada.

Só que o texto tá certo. Essa forma que a gente inventou de homenagear a mãe solo no Dia dos Pais apaga o pai ausente. É preciso dar visibilidade ao fato de que se você cresceu sem a figura paterna é porque na maioria dos casos um homem te abandonou, e isso não é lindo, não é heróico, isso é uma covardia.

Eu sempre discursei que "pai nunca fez falta" "Fui muito feliz sem pai" mas olha, que mentira descarada. Bastava chegar o "nome do pai" num formulário qualquer que já vinha o nó na garganta.
Como é bom amadurecer e poder dizer:
- Foi triste, foi melancólico, eu tive raiva umas vezes e pena em outras. Pena dele, que não viu meu sorriso quando me formei, que não pegou essas minhas crianças lindas no colo.
Enfim. 
É a vida. A gente vai criando novas perspectivas pra tornar uma coisa ruim menos ruim, vai decorando daqui, floreando dali. A gente tem mania de esconder o sofrimento, mas a vida meus amigos, ela tá sempre descortinando suas fraquezas, não esconde nada não. Chora, desabafa, quebra o prato na parede igual aquela novela dos árabes. Brincadeira não quebra o prato não.

A Luciana de hoje, 09 de agosto de 2020 - Dia dos Pais - não esconde mais nem a alça do sutiã, imagine os sentimentos!


P.S. A vida acabou me presenteando com o melhor pai que meus filhos poderiam ter. 💓

Um comentário:

Taiza Assis disse...

Que texto verdadeiro, amiga! Os sentimentos não devem ser negligenciados, mas sim, receberem nomes e entendidos para que não tomem formas e tamanhos maiores do que realmente têm. Sempre dou uma passadinha aqui para olhar seu caderno virtusl. Amo sua escrita. Bjs

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