sexta-feira, 6 de março de 2026

Outras Vidas (Da série: Um conto pra chamar de meu.)


-Olá
-Oi!
-A gente já se viu antes?
-Acho que sim, você trabalha aqui?
-Não.
-Mas vem sempre aqui?
-Não.
-Engraçado, seu rosto me é tão familiar...
-O seu também!
-Será que a gente tem algum amigo em comum?
-É... Pode ser!
-Já sei! Acho que foi na festa do Pedro Paulo ano passado. Um festão! Você tava lá, não estava?
-Não, não conheço nenhum Pedro Paulo.
-Nossa, que estranho!
-Mas e aí, o que você anda fazendo?
-Como assim? A gente nem se conhece! Ou pelo menos eu acho que não...
-De onde vem esse interesse em saber o que eu ando fazendo?
-Não sei! Me deu vontade de perguntar!
-(risos) Mas e você?
-Eu o quê?
-O que você anda fazendo?
(risos)
-Sério. Isso está muito louco!
-Por quê?
-Porque eu estou morrendo de vontade de te contar os últimos 25 anos da minha vida!
-E eu querendo ouvir, por horas a fio, e te contar sobre mim também!
-Não seria mais fácil se a gente começasse sabendo o nome um do outro?
-É verdade! A gente nem perguntou o nome um do outro. É como se não precisasse!
-Isso, como se a gente já soubesse... Mas eu não sei, por mais que eu me esforce não me vem nenhum nome a memória que pudesse ser o seu...
-Eduardo. Esse é o meu nome. E aí, clareou alguma coisa?
-Não. E por falar em clarear, o meu é Clara. Maria Clara na verdade, mais eu odeio o Maria, só falei porque poderia te ajudar a lembrar...
-Hummmmm... Não. Nem Maria, nem Clara, nem Maria Clara! Nada!
-Onde você mora?
-Tá louco?! Eu não vou falar onde eu moro! Vai que você é um psicopata que inventou essa história de que me conhece só pra me perseguir?!
-Mas você está tendo a mesma impressão que eu!
-Verdade, esqueci! (risos) Mas fala você primeiro onde mora!
-Tá, eu moro em Santa Luzia. E você?
-Santa Luzia? Não sei nem pra que lado fica! Mas já tinha notado um certo ar caipira em você... (risos)
-Isso mesmo, é interior, duas horas de carro, não sei qual é a graça. Você é insuportável mesmo! Desde sempre.
-Você é que nunca aguentou brincadeira! E como assim, desde sempre?
- Olha, eu já to com medo disso, parece coisa de fantasma, de outra vida.
(Silencio)
- Ah, vá. Isso é ridículo, eu não acredito em nada disso.
- Eu muito menos, eu sou ateu, sabia?
- Olha eu não faço ideia de como, mas sim. Eu já sabia.
- Bem, está na minha hora, já passou aliás, vou indo, tchau.
- O quê?? Como assim, tchau? Isso vai ficar assim, por isso mesmo? 
- E o que é que você quer que eu faça??? Que te dê meu telefone?
- Sim! Qualquer coisa, email, facebook, sinal de fumaça, código morse. A gente não pode fingir que esta situação não existiu!
- Ok, eu nunca iria embora sem algum contato, você sabe como eu sou curiosa.
- Pior é que sei. Como se explica isso?
- Será que a gente se conheceu nessa vida ou numa outra?
- Olha, eu não sei, mas eu sinto que preciso te dizer uma coisa.
- Eu te amo
- Eu também te amo.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Fênix



Oi blog, quanto tempo!
Fiquei sumida 3 anos, não foi por mal, é que eu estava presa.

Sabe quando a gente vai pro mar animadão, uma onda nos derruba e ficamos lá tentando levantar e não conseguimos? Então, eu estive assim nos últimos 3 anos.

A vida tem estado um tanto confusa: Louca e parada ao mesmo tempo.
A vida de uma família imigrante sem rede de apoio é uma loucura repetitiva e cansativa, estamos sempre correndo de um lado para o outro para dar conta de tudo, mas ao mesmo tempo a própria rotina nos engole em marasmo. Um marasmo louco e cansativo. Olha que estranho, bem vindo ao maravilhoso mundo das famílias que mudam de país!

Os dois primeiros anos em Portugal foram consumidos pela Pandemia, sobreviver era a única meta.

Passado esse pesadelo, começamos a nos dar ao luxo de sonhar. A primeira coisa que eu quis fazer foi... Voltar a trabalhar! Não que não houvesse trabalho de sobra em casa, mas eu queria salário em euro caindo na minha conta bancária. (automaticamente entra em cena o meme EU SOU RICAH)

Eu amo e odeio trabalhar ou seja, a minha relação com o trabalho é tóxica, sofro se não me ocupo, sofro quando já não tenho tempo pra mais nada. É triste.

Conseguir um emprego na minha área de atuação, em uma das maiores empresas de Portugal, depois de mais de 2 anos fora do mercado me revigorou! Eu fiquei muito feliz! Uma proletária felizona no trabalho, desculpaê Marx! 

Tudo muito bom tudo muito bem até que entrou o narrador:
- Ela não sabe o que a espera...

E as cenas do próximos capítulos eram choro, choro e mais choro trazidos pela adolescência problemática da Cecília. 
Pensem em todos os tipos de problema que podem haver com uma adolescente nessa fase crítica da vida.
Faça um combo. 
Foi assim. Uma avalanche, uma guerra civil, um terremoto, tempestades raios e trovões.
Acho que eu sofri nesses últimos 3 anos tudo o que eu não sofri a minha vida inteira.
Teria sido um alivio se apenas eu tivesse sofrido, mas não.
Ver um filho com doença na alma é a pior tortura que os pais podem passar. Não ter um paracetamol ou um antibiótico que resolva é sufocante. 

Aos poucos fomos nos refazendo, juntando os cacos. A maturidade dela foi chegando, os tratamentos dando resultados e a luz da minha filha voltou a brilhar. 

Aquela luz de que tanto já falei aqui nesse blog nas famosas "Cartas para Cecília" havia desaparecido e só restou caos e sofrimento. Digo sem sombra de dúvidas que este foi o período mais difícil da minha vida. Da nossa vida.
Aos poucos a escuridão foi perdendo espaço, mas sabemos que não podemos baixar a guarda.

Ver a luz do dia todas as manhãs requer vigiar a noite. 
Vigiem a noite dos seus adolescentes, todos passamos por ela nessa fase da vida, mas os monstros que há hoje em dia não existiam na nossa época.
É assustador o que a internet, o vício em redes sociais, câmeras, microfones, conteúdos de todos os tipos a um clique, algoritmo, inteligência artificial podem fazer na mente de um adolescente.
Aqui houve o plus de passar por grande parte de tudo isso recém saído do seu país, ainda sem amigos, com as escolas fechadas, no meio de uma pandemia. 
Meus amigos, foi punk.
Mas a Fénix aqui sempre renasce, as vezes renasce xôxa, manca e capenga, mas renasce.

Até a próxima.

domingo, 9 de agosto de 2020

Nome do Pai


Todos os anos, no dia dos pais eu homenageava a minha mãe, a tal da pãe, aquela mulher guerreira que criou duas filhas sozinha, aos trancos e barrancos, sob os solavancos da vida.
Eu sempre achei que isso de certa forma substituísse o fato não poder homenagear um pai que não tive. 
Até o ano passado eu estava de boas esse assunto, mas aí entrou o narrador:
"-Mas este é o ultimo ano em que ela fará isso, pois um texto vai problematizar a cabeça dessa pobre moça"

O tal do texto. Ele dizia o seguinte: Não romantize o fato de que a tua mãe foi abandonada, não romantize o fato de que a tua mãe precisou abrir mão de boa parte da vida pra cuidar sozinha de você. Não ter a ajuda do teu pai pra te criar não é um prêmio, foi sofrido. Aprenda a encarar o fato de que você cresceu sem pai.

Na verdade, relembrando o passado, quando criança não tinha essa história de orgulho da "pãe" não, era chato pra caramba não ter pai no dia da festinha da escola.
No inicio a minha mãe ia, e pra mim era até pior. Ficava aquela coisa "-Olha lá coitada, não tem pai"
E pra quem eu ia dar aquela bendita gravata de papel?
Quando passou essa fase eu dei graças a Deus.

Mas aí a gente vai crescendo, vai vendo como a vida é dura, como o trabalho é cansativo e começa a prestar a atenção no sofrimento da mãe. E começa a bater aquela indignação: -Mas que porcaria de mundo é esse que um sujeito resolve simplesmente fugir da sua responsabilidade?
E a mãe solo vira heroína. E a heroína merece ser homenageada.

Só que o texto tá certo. Essa forma que a gente inventou de homenagear a mãe solo no Dia dos Pais apaga o pai ausente. É preciso dar visibilidade ao fato de que se você cresceu sem a figura paterna é porque na maioria dos casos um homem te abandonou, e isso não é lindo, não é heróico, isso é uma covardia.

Eu sempre discursei que "pai nunca fez falta" "Fui muito feliz sem pai" mas olha, que mentira descarada. Bastava chegar o "nome do pai" num formulário qualquer que já vinha o nó na garganta.
Como é bom amadurecer e poder dizer:
- Foi triste, foi melancólico, eu tive raiva umas vezes e pena em outras. Pena dele, que não viu meu sorriso quando me formei, que não pegou essas minhas crianças lindas no colo.
Enfim. 
É a vida. A gente vai criando novas perspectivas pra tornar uma coisa ruim menos ruim, vai decorando daqui, floreando dali. A gente tem mania de esconder o sofrimento, mas a vida meus amigos, ela tá sempre descortinando suas fraquezas, não esconde nada não. Chora, desabafa, quebra o prato na parede igual aquela novela dos árabes. Brincadeira não quebra o prato não.

A Luciana de hoje, 09 de agosto de 2020 - Dia dos Pais - não esconde mais nem a alça do sutiã, imagine os sentimentos!


P.S. A vida acabou me presenteando com o melhor pai que meus filhos poderiam ter. 💓

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Reencontro


Corticóide é tipo o céu e o inferno.
Ao mesmo tempo que é extremamente eficaz pra tratar uma infinidade de doenças, ele te lembra constantemente a causa de você o estar tomando: Você está doente minha filha, segura essa marimba aí!
É um CAMINHÃO de efeitos colaterais. Para as mulheres é ainda mais devastador, porque te pega naquilo que te dói mais: A tua auto estima.
Certeza que os efeitos colaterais foram elaborados pelo teu pior inimigo:
A pele fica uma merda, você incha em lugares estrategicamente terríveis (face, tronco, abdômem), o cabelo cai, sua visão piora, seu sistema emocional entra em colapso. Pois é.
De uma hora pra outra você olha o espelho e não está mais lá. Aquela imagem que está lá não é você. E bate um desespero, porque aquilo não foi um processo, não foi fruto de escolhas suas, é como se você tivesse sido sequestrado e tivessem colocado outra pessoa ali. 
E foi aí que eu descobri uma coisa LINDA:
Eu não sou a imagem que aparece no espelho! 
No meio do caos, eu me reencontrei.
Diante de tudo o que sou, a imagem é o que menos importa, porque a minha essência era quem me mostrava dia após dia durante essa luta que eu estava lá, intacta.
Eu sou os livros que li, as músicas que ouvi, as milhares de páginas que já escrevi e que ninguém leu.
Eu sou a minha memória, reminiscências de momentos que luto para estarem sempre frescos e outros que gostaria de esquecer.
Eu sou todos os rostos afetuosos que me aparecem quando fecho os olhos, meus amigos, meus familiares, aqueles conhecidos que ainda que tenham passado rápido pela minha vida, levaram um pouco de mim, deixaram um pouco de si. 
Eu sou o amor avassalador da maternidade e o tanto que os meus filhos me transformaram.
Eu sou a minha coragem de mudar de país e o meu medo de dormir no escuro.
Eu sou aquela menina que amadureceu cedo demais, por causa das durezas da vida.
Eu sou a minha vontade de mudar o mundo e a minha indignação diante das injustiças.
Eu sou os amores que tive e aquele que escolhi pra envelhecer e ver os netos correrem pela casa.
Eu sou tanta coisa, milhares de fragmentos que se juntavam e se transformavam na Luciana que eu precisava enxergar no espelho todos os dias pela manhã.

sábado, 30 de maio de 2020

Manual de Sobre(vivências) - Quarentena Edition



Queridos brasileiros,
As coisas não vão bem por aí né? 
Vocês estão passando por um momento de necessidade de isolamento que já  enfrentamos aqui em Portugal, e eu queria compartilhar o que me ajudou a superar.

Por mais que a gente faça exercícios de resiliência e positividade, por mais que se faça o esforço diário de manter um clima ameno e minimamente prazeroso não se pode negar o óbvio: O isolamento é horrível.
E tem que ser ainda mais clara para os reizinhos da positividade tóxica: é ruim, é uma merda federal, é UÓ.
Pode chorar, pode desabafar, pode ficar nervoso, se revoltar por estar vivendo um momento desse. Isso é perfeitamente normal e compreensível. Não caia na armadilha de ter que achar lado bom em tudo.

Quando a gente lida com as situações enxergando como são de verdade, consegue ter mais controle sobre elas. 
Se conscientizar sobre o quão ruim é uma situação também te deixa com medo e o medo te faz precavido, o que é extremamente importante nesse momento.
Eu tive muito medo, ainda tenho. 
Estar confinada dentro de um apartamento, apavorada por fazer parte do grupo de risco para uma doença desconhecida é uma das experiências mais traumáticas que levarei dessa aventura humana na Terra pela qual estou passando. Bjo Banda Eva!

O mais importante é você não se deixar resumir a isso. Não se resuma a medo e indignação. Saiba aproveitar os momentos de descontração que continuam a existir, apesar de tudo.
Veja beleza nas coisas simples, isso vai te salvar!
Vai te salvar da sensação de não estar vivendo a vida no modo Instagram, cheia de festas, shopping's e qualquer coisa fotografável, como paredes com asas pintadas em que você fica parecendo um anjo baladeiro.

Se apegue a seus amores e seus valores.
E se você for um ser humano legal de verdade, pense sobre o bem que a sua dedicação em se isolar e cumprir as recomendações vai fazer às outras pessoas. Gente como eu, que precisa de uma proteção ainda maior por causa de problemas de saúde ou idade.
A sua decisão de cumprir o isolamento social não salva apenas a sua vida.

Sempre achei que o  Brasil iria demorar mais para acordar e se emocionar diante desta tragédia. 
Somos bombardeados de morte noite e dia mesmo antes da pandemia. A violência cotidiana que nos cerca transformou a morte em algo corriqueiro, estampado em jornais diariamente, passa no horário nobre da tv, bem na hora do jantar.

Precisamos resignificar a morte, aprender novamente a nos emocionar com as perdas sem que seja preciso que ela atinja alguém muito próximo da gente. Todo mundo que morre é o amor da vida de alguém.

Atenha-se à dinâmica do seu lar, controle as coisas que você consegue controlar e se importe menos com as coisas que não pode controlar.
Em termos práticos: Não adianta ficar extremamente preocupado e pesquisando sobre a vacina se você não poderá ajudar na descoberta dela. Deixe isso com os cientistas.

Não fique focado em notícias o tempo todo, isso  faz mal. 
Só que faz ainda mais mal ser alienado. Não saber minimamente o que está acontecendo no seu país te deixa em um limbo em que você está se dedicando para combater algo que você não sabe ao certo a importância que tem e isso te desmotiva a continuar isolado.
Além do mais estamos diante de uma doença nova, várias descobertas são feitas diariamente por milhares de cientistas mundo afora. Novos sintomas, novos tratamentos, o que funciona e principalmente: O que NÃO funciona. ´
É importante estar bem informado.

Criar alguma rotina é importante, mas não precisa ocupar todo o seu dia com afazeres, afinal você está em casa e não num quartel.
Você não precisa se tornar um intelectual gastrônomo sarado durante a quarentena. Relaxa.

Eleja uma série bem grande com várias temporadas para acompanhar, faça noites do cinema em casa, escreva um diário, ou poemas, ou apenas desabafe com o papel, ele é excelente ouvinte: Não te julga, fica caladinho lá, só ouvindo, muito gente boa esse tal de papel. hahaha

Ouça as lives da moda, mas resgate músicas da sua infância e adolescência, você vai se divertir e ficar impressionado com ainda sabe de cor todas aquelas pérolas. Faz aquele desafio no Youtube de quem lembra as músicas mais velhas!

Com um futuro incerto à frente, resgatar suas histórias do passado te faz revivenciar momentos bons, pega aquelas fotos antigas, vai rir das roupas que você usava.

Seja forte, conseguiremos passar por isso. 
Aqui estamos reaprendendo a viver em liberdade, pode ser que as coisas demorem mais por aí, mas mantenha-se firme e vigilante.

Isso vai passar e você terá que estar inteiro para reviver a sua liberdade. 
Ferido, mas inteiro.


P.S: 
Para aqueles que precisam sair de casa e não têm o privilégio de estar isolado: Saia como se estivesse naqueles filmes da Netflix em que o inimigo é invisível. 
Use máscaras, álcool e mantenha distância das pessoas, você é um combatente indo pra guerra todos os dias e os seus cuidados ajudarão a manter a sua família segura.

P.s 2: Sejamos honestos, escolhas politicas recentes trouxeram o Brasil para esta calamidade. 
Todos temos o dever moral de impedir que as próximas eleições estendam essa escuridão na qual o país está mergulhado.

domingo, 24 de maio de 2020

Sobre verões e máscaras




Voltar à tona de pois de 71 dias mergulhada no isolamento social é impactante.
Para mim pelo menos, que pertenço ao grupo de risco e não coloquei o nariz do lado de fora pois não sou boba nem nada.
Mais de dois meses confinada em casa transformou o meu universo em uma coisinha pequenininha e protetora e ter que me aventurar no mundo lá fora foi uma experiência no mínimo assustadora.
Sair e ver que a vida continua, apesar de tudo, me trouxe uma sensação indescritível pois até alguns dias antes de serem informadas as medidas de desconfinamento gradual pelo governo, eu ainda me perguntava se passaria o resto dos meus dias atrás das grades (sempre quis dizer isso hahaha).
Temos saído para passear aos finais de semana, mas apenas para lugares a céu aberto onde se pode cumprir o distanciamento social mais efetivamente.
Ontem fomos a um lugar incrível, a Costa da Caparica, uma praia linda, com pôr do Sol mais lindo que eu já vi. 
A normalidade seria sentarmos em um bar ou restaurante, comer uma coisinha, beber uma cerveja... Mas para nós a normalidade vai demorar muito pra ser restabelecida.
Nós somos uma família muito corajosa para um montão e coisa: A gente troca de bairro, de cidade, de estado, de país, faz mala, desfaz mala, começa projetos, desiste de projetos,  mete as caras, quebra a cara. Recomeça.
Mas quando se fala em doença o buraco é mais embaixo, a gente treme igual vara verde - sim eu uso gíria do século retrasado.
Ontem estávamos na praia de máscara. Acho que nós éramos as únicas pessoas de máscara na praia, sinto que fomos atração e as pessoas devem ter apostado entre si que quando a gente chegasse em casa estaríamos igual ao Kiko do Chaves em Acapulco com a marca da máscara de mergulho na cara.
Mas já tivemos um avanço em relação ao passeio anterior: 
Tiramos a máscara para tirar foto e minha postagem no Instragram não ficou parecendo o Carnaval fora e época do bloco dos mascarados.
Precisamos saber como vai se dar essa volta. O vírus não desapareceu e a vacina ainda não chegou.
Portugal controlou a curva de infecções durante o período do estado de emergência, com medidas de restrição e com as pessoas dentro de casa. O Sistema de Saúde atendeu à demanda que lhe foi imposta. Mas será que com as pessoas nas ruas novamente haverá uma explosão de novos casos? 
Se sim, o sistema de saúde vai aguentar? São muitas perguntas que só o tempo poderá responder.  
As autoridades estão preocupadas em abrir a economia, que já sofreu muito enquanto tudo estava parado, mas também estão preocupadas com as pessoas, estão atentas e acho que não exitarão em fechar tudo novamente se a escolha for salvar vidas ou a economia. Isso é reconfortante..
Acompanhar a situação do Brasil também nos deixa apreensivos demais para chegar a um nível de tranquilidade que nos permita ir à rua sem medo.
Enfim, são muitas emoções.
Ainda temos medo, mas aos poucos também temos coragem e há dias ensolarados lá fora.

domingo, 17 de maio de 2020

A Carta de Luciana Vaz de Caminha


Caros amigos,

Faz 9 meses que chegamos à Portugal. Nascemos!
Pode-se dizer que a nossa concepção se deu quando desembarcamos no  aeroporto de Lisboa, atônitos, naquele agosto de 2019. 
De lá pra cá vivemos angústias e alegrias semelhantes às de uma gestação de primeira viagem: É tudo muito novo e dá um medo danado.

Passada a dificuldade natural dos primeiros meses, o ano novo nos trouxe novo ânimo, fizemos muitos planos e projetos de viagem para quando o verão chegasse.
Passamos o inverno hibernados.
A peste chegou antes do verão, destruindo nossos planejamentos e estendendo um isolamento quase "quarentenico" que vivemos no inverno, trancados em casa a maior parte do tempo, já que não estávamos habituados àquele vento gélido que parece mais uma lâmina a cortar os narizes.

Isto por um lado foi bom, pois já estávamos fisiologicamente habituados, o que tornou as coisas mais fáceis quando tivemos que aderir ao isolamento social obrigatório. Mas por outro lado nos trouxe uma sensação de Epitáfio dos Titãs... "Devia ter amado mais... Ter chorado mais... Ter visto o sol nascer...". 

Trazemos conosco saudade do que não vivemos em Portugal, dos lugares que não conhecemos porque deixamos para conhecer em tempos melhores, em dias ensolarados, quando já estivéssemos com as contas mais folgadas, passadas as despesas da viagem.

Agora nos pegamos pensando em quanto tempo teremos que esperar para finalmente conhecer o Porto, o Alentejo, a Serra da Estrela e tantos outros lugares maravilhosos que há para conhecer e ir se apaixonando cada vez mais por Portugal.

Pensamos também se esse tempo futuro que estamos aguardando chegar para retomar nossos planos será como antes ou se, parafraseando Lulu Santos, "Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia..."

Esses dias li em algum lugar que não há nada de bom para se aprender com uma pandemia, que ela se resume ao horror. Cheguei a concordar com isso, por indignação, mas logo voltei atrás. 

Este caos me ensinou uma coisa boa que levarei para o resto da vida: Não deixe para viver no futuro, não espere pelo momento propício pois ele pode nem chegar. 

É certo que viveremos dias melhores que estes, sairemos feridos, mas inteiros. 
A humanidade não vai viver a tão propagada renovação em amor e solidariedade, não espere por isso. Renove-se em si mesmo, reveja seus conceitos, viva mais intensamente, tenha coragem de se reinventar e o mais importante:

Enfrente os dias frios.

sábado, 7 de março de 2020

❌ALERTA❌



Nem todo herói usa capa.


Gente o rim é um sujeito falso. 
Você tá lá de boas, sem nenhum sintoma e páh: Descobre uma Nefropatia. 
O safado não te dá nem um aviso de que as coisas estão dando ruim até que elas comecem a dar MUITO ruim.
Então se eu pudesse dar um conselho pros meus amigos seria: Bebam água, parem com automedicação (especialmente antiinflamatorios) e meçam regularmente a Creatinina.

SANTA CREATININA!

Foi ela mesma, fada sensatíssima, que me avisou da falsidade do rim.
Era maio do ano passado, eu fui parar na urgência do Oeste D'or em Campo Grande por causa de uma sinusite. Fiz RX da face e um exame de sangue pra ver se tinha infecção mesmo, se ia precisar de antibióticos.

Quando o médico me chamou, perguntou:
- É sinusite mesmo, mas e essa doença renal, vc está tratando?
Eu: - Quê? Doença renal? Nunca nem vi!
E ele: 
- Pois vá com urgência procurar um nefrologista, porque com essa taxa altíssima de Creatinina aqui você acaba de descobrir que tem sim, resta saber que tipo é.

Foram meses de exames e mais exames finalizando com biopsia renal até descobrir o que era.
Agora vocês imaginam a pessoa hipocondríaca, com dois filhos pra criar como ficou: Devastated. 😢💔

Hoje eu tô tratando direitinho, tá correndo bem o tratamento, mas se eu demorasse mais pra descobrir já ia direto pra hemodiálise 😲 pois já estava perdendo muito percentual de função renal, não ia ter corticóide que desse jeito.

E eu vou falar pra vocês: Lidar com os efeitos colaterais de uso prolongado e dose alta de corticoide é uma MERDAAAAAA  #desabafo 😂😂😂

O inchaço é só mais um entre tantos ...
Fácil não é, mas ainda bem que ninguem me disse que era.
#chegadefalsidade hahaha

Então é isso anjos, se cuidem e torçam pelos meus rins.

Ninguém solta a mão da Luciana kkkkk

Bjo

domingo, 29 de dezembro de 2019

A escola portuguesa da Cecília.


Uma das melhores surpresas que tive ao me mudar pra Portugal foi a escola da Cecília, talvez porque essa também fosse a minha maior preocupação ao chegar aqui.
Adaptar uma criança de 10 anos em uma escola nova nem sempre é fácil, e ela vinha de uma experiência conturbada, saiu do Marista São José na Tijuca no final de 2017 direto pra uma escola em uma cidadezinha do Paraná no início de 2018, uma fase difícil pra caramba, adaptação sofrida, saudades do Rio..

Quando finalmente se acostumou com o Dom Bosco, voltamos pro Rio e no início de 2019 lá foi ela pro Centro Educacional Santa Mônica em Campo Grande, e olha... Não foi fácil... Não fosse pela Ingrid, uma amiguinha linda que ela fez lá,  as coisas teriam sido muito piores... Não era o modelo de ensino e acolhimento que ela estava acostumada...
Saiu no meio do ano pra se lançar no Atlântico rumo à Portugal.
Tá explicada a minha preocupação, certo?

Mas aqui eu encontrei uma escola maravilhosa, gente uma escola pública! Às vezes eu tenho que repetir isso em voz alta pra acreditar!
Mas a experiência que relato aqui é de uma escola num dos melhores Concelhos de Portugal, zona central de Lisboa. Digo isso porque há diferenças muito grandes neste país, de uma zona para outra e dependendo de onde você viva, a experiência pode ser completamente diferente.

Vamos lá, com relação aos conteúdos propriamente ditos, eles são bem equiparados aos que são dados no Brasil, mas há matérias, como por exemplo "HGP - História e Geografia de Portugal" que ela teve que cair dentro pra correr atrás do prejuízo, já que é óbvio que não teve essas especificidades histórico geográficas sobre Portugal no Brasil.

Teve que se dedicar muito também à Língua Portuguesa por conta das diferenças de vocabulário e de gramática. Tirou de letra, ela é muito dedicada, mas até pra ela, trocar o "estou fazendo" por "estou a fazer" levou um tempinho. Hahaha

O inglês é levado a sério, são 3 tempos semanais de 45 minutos cada, vejo mais conteúdo e aproveitamento que no curso que pagava no Brasil, por exemplo.

Na grade oficial, além de Ciências Naturais e Matemática, ainda tem Artes Palco (teatro) e Educação musical,  o que eu amo porque traz mais criatividade e arte pra vida escolar!
No quinto ano do Santa Mônica ela tinha apenas 2 professoras, no mesmo quinto ano aqui ela tem 1 professor pra cada disciplina que eu citei. Muitas diferenças mesmo!

Ainda nas matérias da grade oficial eles têm: TIC que é dada em laboratório de informática e a Educação artística (ou Artes) aqui se chama EV - Educação visual. 

Nessa escola as crianças são o tempo todo provocadas a exercer a independência e o senso de responsabilidade. Há auto avaliações, e em vários momentos são convocados a fazer algo pela escola, que pode ser limpeza do pátio ou da sala por exemplo.

Uma vez por semana tem aula de Cidadania, que é uma assembléia de turma em que eles discutem o andamento das aulas, tomam decisões e resolvem problemas. Eu acho incrível.
A Cecília está em uma escola que tem um método próprio. É como se fosse uma escola modelo, ela passou por um momento de renovação há uns anos quando um diretor a transformou completamente, implantando um novo método no estilo daqueles filmes americanos de superação escolar que a gente cansou de ver na sessão da tarde. Hoje está entre as melhores da região, foi bem difícil pra conseguir essa vaga, eu tive que insistir muito.

Eles fazem um acompanhamento individual dos alunos (a turma dela tem 28, nem é pouco né!?). Quando alguém fica "para trás" tem dificuldade de acompanhar o ritmo, eles intervém: Fazem aulas de reforço, formam grupos de alunos para ajudar ou encaminham para o psicólogo / pedagogo.

As aulas regulares se iniciam às 8:20 da manhã e vão ate às 15:20h quase todos os dias. Após esse  horário ela tem vôlei 3 vezes na semana (fora da Ed. Física da grade), Oficina de pintura 2 vezes na semana e faz parte do projeto de voluntariado na biblioteca...
E na escola tem vários outros projetos que a criança vai se encaixando de acordo com o interesse. Muitas opções de desportos, tem até  turma de vela ⛵ pois eles têm convênio com a da Marina de Cascais que é próxima daqui.
Aliás, como a gente está em uma zona de litoral, a escola mantém essa conexão com o mar, as crianças finalizaram agora o projeto de uma versão miniatura de barco, ficaram dois meses no projeto. Cada grupo construía um, com madeira e depois foram lançados ao mar na baía de Cascais, uma coisa linda!

Falando das questões mais práticas: Cada criança tem um cartão e nós temos que recarregar esse cartão com dinheiro para eles gastarem na escola, pois as compras lá dentro são feitas com o saldo que as crianças têm no cartão. Isso serve pra cantina, papelaria e pro refeitório.
O almoço é pago, cerca de 1 euro e meio por dia e a criança come: 1 sopa, prato principal e sobremesa. E tem a lanchonete se quiser comprar algo fora do horário de almoço.

A estrutura da escola é ótima, me lembra uma universidade particular dessas que tem no Rio, bem prática e funcional, só que em proporções menores. Lá tem o ciclo básico (a partir do 5° ano) e vai até o Secundário.
No secundário aqui os jovens tem a responsabilidade de conseguir acumular pontos para as universidades, ou seja, se você teve um Secundário ruim provavelmente não vai para a melhor universidade...

Os professores são todos portugueses, no início ela teve dificuldade com o idioma, que apesar de ser "o mesmo" é MUITO diferente quando a gente chega, mas agora já está totalmente adaptada.
Eles são rígidos, os portugueses são diretos e meio secos mesmo... Mas fora essa questão que é cultural, eles são boa gente!  Algumas professoras já ganharam seu coração!
Todos os funcionários estão SEMPRE dispostos a ajudar quando a gente chega na escola. Aliás eu percebo isso nos hospitais também.

Cada turma tem um DT - Diretor de turma. Eles escolhem um dos professores da grade e ele/a fica responsável pela turma. Qualquer problema que os pais tenham, tem que marcar com ela e é ela quem envia aos pais qualquer recado ou reclamação que os outros professores tiverem. Há uma lista de emails para essa comunicação.
Nós resolvemos praticamente tudo online no site da escola, pois é tudo informatizado. (Ver notas, justificar faltas, marcar e ver reuniões, no site temos acesso ao que é dado diariamente em cada disciplina, vemos saldo do cartão, marcamos as refeições da semana...)
É muita tecnologia no lance!

Vou finalizar falando que ela foi muito bem acolhida pelos amiguinhos de turma, as criancas são adoráveis! 
Tem dia que eu tenho que ligar e brigar pra Cecilia voltar pra casa. Parece que ela gosta mesmo da escola portuguesa! hahaha

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Cartas Para João



Oi meu filho,



Já faz 2 anos e 8 meses que você nasceu e eu tô te escrevendo pra te dizer umas coisas que eu acho importante que você saiba.
Sabe João, você nasceu em 2017, um ano muito complicado para as mulheres e eu vou te explicar porque:
Nós, sua irmã eu e todas as mulheres no Brasil, vínhamos de um processo de conquista de direitos, visibilidade de fala e um pouco mais de respeito por tudo aquilo que representamos na sociedade.

Algumas políticas públicas foram implementadas para garantir alguns direitos, as coisas aconteciam mais lentamente do que deveriam, mas era visível a melhora.
Uma das leis mais importantes é a Lei Maria da Penha (um dia te conto a história dessa grande mulher) porque ela visa garantir a nossa segurança e resguardar a nossa vida. Isso mesmo meu filho, foi preciso criar uma lei pra nos proteger de uma coisa chamada machismo.

Machismo, que palavra engraçada né? Ela vem da palavra macho, igual bicho, tem gente que gosta... Como se não tivéssemos uma palavra linda pra designar vocês: Homem.
Ser macho é ser irracional, filho, prefira ser homem. 

Sabe aquela luta pelos direitos que eu estava falando? Ela é liderada por mulheres que, em nome das outras, lutam para que eles sejam criados e cumpridos, estas mulheres são chamadas de feministas.
Você, perspicaz como é deve estar pensando: Feminista, vem da palavra fêmea. Sim.
Mas vamos pular esta parte morfológica das palavras ou focar no instinto materno-protetor  das fêmeas na natureza. hahaha
Essas mulheres, as feministas,  querem que homens e mulheres tenham direitos e deveres iguais.

O feminismo nasceu como reação ao machismo, uma espécie de enfrentamento, pois o machismo gritava que as mulheres são inferiores aos homens e era preciso gritar de volta.
Eles, os machistas, pensam que nós somos menos capazes, que devemos obedecer aos maridos, filhos, chefes ou qualquer homem que nos cerque.
O machismo trata as mulheres como posse, e posse você sabe meu filho, a gente tem é sobre objetos, bens comprados. 

Aí mora uma questão muito importante: Muitos homens acham por exemplo que ao se casar ou firmar um relacionamento estão tomando posse da mulher, como se tivessem assinado um contrato de compra. A partir daí coisas terríveis acontecem, por isso você ouve falar tanto em casa sobre respeito, liberdade e amor, pra você jamais pensar desse jeito.
Acho que ter uma mãe feminista e um pai como o seu vai fazer muita diferença na sua vidinha meu filho, e na vida de uma sortuda também...

Sabe filho, agora vem a parte chata da história... De 2017, o ano em que você nasceu, pra cá as coisas pioraram muito para as mulheres, o Brasil estava convulsionado, partido, despedaçado...
As pessoas que haviam, durante 14 anos ajudado a criar politicas públicas de proteção para as mulheres não estavam mais no governo (um dia Historiadores como a sua mãe vão escrever sobre isto e você vai estudar tudinho na escola o que aconteceu). 
Caminhávamos para eleger um novo governo no ano seguinte, este candidato declarou publicamente que "mulher deve ganhar menos porque engravida" parece mentira né? mas tá registrado, documentado...

Mas não era só isso, meu filho, o cenário era assustador, e infelizmente se cumpriu.
Sob este novo governo, se iniciou uma espécie de "propaganda do macho", tudo o que não precisávamos. 
Eles diziam que o homem, pra ser macho ter que ter armas e atirar, tem que ter armas em casa, andar armado na rua, matar.
O candidato vencedor falou, também publicamente, em fuzilar seus adversários políticos. Falou isso durante a campanha e pasme: Foi eleito.
Muitas mulheres apoiaram este candidato. Você deve estar confuso né? Tudo bem, eu também estou, até hoje.

Mas eles foram muito espertos sabe? Primeiro eles disseram que as feministas eram feias e muitas outras coisas terríveis que eu vou te poupar, assim, a nossa voz não chegava mais pra um montão de mulheres que acreditaram neles. 
Depois eles disseram que queriam proteger as mulheres da violência.
Depois colocaram armas nas mãos dos homens que mais matam mulheres por feminicídio, que é o crime em que a mulher é morta simplesmente por ser mulher. Muitos destes homens, vistos como "cidadãos de bem" acima de qualquer suspeita, mas que são machistas e podem matar se contrariados. 
Olha que perigo.
Nossa filho, não queria ter que falar tantas coisas ruins pra você, mas eu não posso maquiar uma realidade que você precisa entender. 
Acho que você só lerá esta carta com 18 anos. hahaha

Que mundo louco né meu filho?
Mas olha, tudo isso que eu contei até agora, foi pra te deixar bem consciente e te fazer entender o principal, que eu deixei pra falar no final, o mais importante:

Você é homem, um homenzinho lindo, mas antes de qualquer coisa você é HUMANO.
Você pode chorar, se emocionar, mudar de ideia quantas vezes for preciso, você pode se sentir fraco e buscar abrigo, você pode se sentir forte e proteger.
Ao humano é permitido se arrepender e pedir desculpas.
É incrível quando a gente perdoa, e tira a nuvenzinha fria do coração, então perdoe sempre que puder.
Seja bom meu filho, seja gentil com as mulheres, seja solidário com os necessitados, seja corajoso pra enfrentar situações de injustiça.
Seja o que você quiser ser, desde que seja honesto consigo e com os outros.

Nunca corrobore uma piada machista, nem pra se sentir aceito. Você não precisa disso.

Que você respeite todas as mulheres que cruzarem o teu caminho.

E que você seja muito feliz meu filho.

Ah, e quando alguém te disser que algo que você esta falando ou fazendo parece "coisa de mulherzinha" responda: Ainda bem.



Ah, tem cartinhas que já escrevi para Cecilia aqui e aqui

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Eu tô comendo Portugal!


Portugal está me devolvendo o prazer de cozinhar (e de comer também, hehehe).
Eu digo comer com prazer, mas não aquele prazer rápido de quando a gente devora um podrão na praça, é um borogodó diferente, sabe?

Aqui eles têm uma paixão pela comida que está intimamente ligada aos meios e não apenas aos fins do processo. Explico: Comer vai muito além de colocar a comida na boca, comer é acompanhar os processos que fizeram aquela comida chegar ao teu garfo. 

Eles falam orgulhosamente sobre seus produtos locais. Nos supermercados (jaja vou falar deles), há sempre uma menção carinhosa quando um produto é produzido por aqui, indica-se a região, até o produtor. Os produtos de época estão sempre impecáveis. Um exemplo bom disso é a época da laranja do Algarve, em que o pais é invadido pela laranja mais doce que você vai experimentar na sua vida!

Há aqui também um apreço pelo cozinhar, que é um ritual amoroso e técnico.

Amoroso porque tratam a comida como fonte de saúde (apesar do sal do bacalhau e do amor pelos doces) com afeto, com cuidado. Técnico porque os métodos seguem sempre uma maneira já organizada há séculos, temperos bem naturais, processos de cozimento definidos, tudo muito prático, sem invencionices, sem knnoor, sem sazon e etceteras.
Ir ao supermercado se tornou um dos meus programas prediletos, por mim podiam fazer uma rave no mercado que eu passava a noite toda lá fácil!

Gente, vocês que são fadas e gnomos da cozinha iriam ficar loucos! Tem muita coisa legal, acessível.

Sabe aqueles ingredientes que a gente vê nos programas do GNT  e no Masterchef mas a gente nunca compra, porque não tem no Guanabara ou porque é a gente que não tem dinheiro já que no Brasil custa a cara inteira? Pois então, aqui tá lá disponível pra comprar, pra qualquer um comprar.
Se eu falar que é tudo muito barato estarei mentido descaradamente.
Como é um país de dimensões pequenas, os produtos naturais são muito valorizados. Carnes em geral também não são baratas, os produtos industrializados sim, são bem baratos.

Tem uma coisa muito legal aqui, que também tem aí no Extra: Os mercados têm suas marcas próprias e esses produtos são MUITO mais baratos que os outros. E é uma INFINIDADE de produtos de marca própria. Pingo Doce e Continente, eu vos amo e vou protegê-los.

Aliás gente, o amor pela comida em Portugal se mede pela quantidade de supermercados que existe neste lugar. Esses dois que eu citei aí parece um vírus, tu piscou aparece um bem na tua frente quando você vira a esquina.
Em todos os shoppings tem uma versão GIGANTE de Continente!
E tem também as grandes áreas de supermercados, onde há vários outros  além destes que eu já citei.

Tenho gostado de planejar o que comer, porque isso deixa a gente mais próximo da comida, além de ficar BEM mais fácil e impedir de "comer qualquer coisa".

Isso pra quem tem o tempo que tenho agora, e com esse cristalzinho de neném que eu tenho em casa né?

Quando João nasceu, em 2017, eu parei de cozinhar. Eu passei essa tarefa pro Fábio, porque ele já vinha numa vibe Masterchef, gostando de cozinhar pros amigos, com uma cervejinha apoiada na bancada da cozinha, felizão. Então foi um processo natural, já que eu tinha muito trabalho com o bebe recém nascido e tals.

Ele fazia a comida todos os dias. Eu adorava, mas confesso que sentia falta de cozinhar.
Minha mãe é a melhor cozinheira da história, tá no sangue!
Quando fui morar no litoral do Paraná, em 2018, toda a minha família comia muito mal. 
(beijo Matinhos, NÃO me liga!)
Fazer supermercado lá era um inferno, não tinha nada, a qualidade era ruim, pouca oferta de marcas...

A gente passou 2018 jantando pizza sei lá umas duas vezes na semana. A pizza pra pedir lá era tão barata que eu acho que havia uma máfia de trabalho escravo de pizzaiolo por lá, alô Policia Federal, deixa o Lula em paz e vai atras das pizzas (de todos os tipos!)

Passado este ano, voltamos pro Rio e eu quase não cozinhava também, essa volta pro Rio foi tão turbulenta que eu nem tinha tempo nem animo de cozinhar com o amor que a comida merece.
Eu cozinhava no modo piloto automático.

Mas eu tenho que confessar uma coisa, esse descobrimento da comida e do prazer de cozinhar em Portugal tem a ver com vários fatores e o primeiro deles é SAÚDE. 

Recebi expressas recomendações medicas aqui para melhorar a alimentação. Cagaço, né mores? kkkkk
O segundo é que Fabio tem trabalhado MUITO aqui, chega tarde, então pelo menos por enquanto a capitã da nave mãe chamada cozinha, sou eu.
O terceiro é pra fazer as crianças verem a comida da maneira correta, pra que eles valorizem a comida e estejam conscientes sobre seus diversos significados.

Mas olha, eu to adorando! Sentir melhor os sabores, os temperos, os cheiros... 

Vou me inscrever no Masterchef Portugal.
Leoninos, eles tem que acabar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A dor e suas várias faces.


A semana que se passou foi dolorida. Entende-se aqui por dor aquilo que, fisica ou emocionalmente, adoece e inquieta a alma.
João esteve doente. 
Há aqui em Portugal sistema público de saúde que funciona, apesar de não ser perfeito, mas funciona de um jeito diferente do que eu estava habituada.
Era segunda feira e o pequeno começava a dar sinais de que não estava bem. Dois anos vivendo a maternidade em tempo integral me faz perceber e "diagnosticar" muita coisa pelos primeiros sinais.
Febre alta e recusa de alimentação sem sinais de gripe: A bendita garganta.
No Brasil eu teria informado à pediatra pelo whatsapp e, caso ela não pudesse atendê-lo, eu o levaria a uma emergência e sairia de lá com a indefectível prescrição de um antibiotico.
Há pressa em sanar a dor. A dor não pode doer.
Chegamos à emergência do Hospital de Cascais na quarta feira, João  estava há 2 dias com febre. Houve muita espera para sermos atendidos, espera que foi compensada pelo excelente atendimento que tivemos. Consulta cuidadosa e demorada. A medica me mostrou a garganta dele, muito inchada, vermelha e com algumas plaquinhas e me disse:
- Mãe, pode não ser bacteriano, medique a febre por 3 dias e retorne se não melhorar.
Saí arrasada, meu filho iria sentir muita dor. E sentiu. E melhorou.
Era viral.
Quantos antibióticos meus filhos já tomaram sem necessidade? Dificil calcular.
Essa foi a dor fisica da qual falei. Dor de filho a gente sente junto. As noites em claro, a vigília, a preocupação, o colo ininterrupto, tudo dói.
Mas a alma doeu muito essa semana também.
Eu recebi de longe a noticia da morte da oitava criança por bala perdida(?) no Rio de Janeiro.
Crianças quem morrem em casa, na rua, a caminho da escola, a qualquer hora do dia. Essas mortes são fruto da política da violência que se instalou no Brasil. 
Ágatha morreu dentro de uma Kombi na favela, fosse dentro de uma Land Rover em Ipanema o país teria vindo abaixo. Seriam revistas as normas, as regras, os procedimentos, a forma.
Mas não. O contador de crianças pobres baleadas no Rio de janeiro vai continuar rodando. 
Eu sinto dor por essas famílias, mas eu não sei qual é a dor dessas famílias. Só quem tem o coração dilacerado pela morte de um filho é capaz de saber.
Bolsonaro, o presidente. Witzel, o governador. Ambos foram eleitos com a promessa de "metralhar as favelas" "atirar primeiro e perguntar depois" "dar carta branca para a polícia matar".
As pessoas que os elegeram bem sabem que nas favelas há crianças. Muitas.
Dito isto: Quantas pessoas ajudaram a puxar os gatilhos que já mataram oito crianças em 2019 no Rio de Janeiro? 
É difícil olhar pro meu país de longe. E dói.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"- Vocês vão ficar aí pra sempre?"


Essa semana milhares de DUAS pessoas me fizeram a pergunta que intitula esse post, então  resolvi escrever sobre, porque se não for pra superlativar a sua importância perante o mundo a leonina nem sai de casa!
Sem fazer ideia do que responder falei que "Pra sempre é tempo demais".
A decisão de ir morar em outro país não é nada fácil, é muito custoso e difícil colocar a vida na mala e dizer adeus pra sua história.
Até chegarmos ao "sim" foram noites em claro, conversando, pensando, concluindo, duvidando, sonhando, chorando...
Era a situação do Brasil e a TREVA POLÍTICA da extrema direita que se abateu sobre nós dizendo -"Vai!" e a saudade da família e dos amigos dizendo "-Fica!", ganhar em Euro dizendo "-Vai!" e o medo de as crianças não se adaptarem dizendo "-Fica!". Foi um carrossel de emoções!
Imigrar é nascer de novo.
Essa coisa de nascer de novo geralmente tem um significado muito bom, pois significa que você escapou por pouco de alguma coisa muito ruim.
Mas se você pudesse fazer uma terapia de regressão pro exato momento em que veio ao mundo e teve que lidar com o novo, o desconhecido e o medo, essa expressão provavelmente teria algum outro significado.
Nascer de novo te abre um leque de infinitas possibilidades boas, ao mesmo tempo que te obriga a reescrever toda uma gama de histórias que vai desde o seu vizinho saber que você é uma pessoa legal e honesta, até a construção de relações de amizade que vão te fazer se sentir melhor na terra nova.
Você tem que dizer pro governo que você e sua família existem, lidar com toda a burocracia de ter que existir de novo perante a lei sem aquela etapa em que os seus pais fazem tudo por você.
Estamos falando aqui de uma historiadora perdendo a paciência com tanto documento e papel, não é pouca coisa não!
Em contrapartida no meio disso tudo há tantas coisas para ver, tantas coisas lindas pra conhecer! Paisagens, lugares, pessoas, História, arquitetura, cultura...
A gente fica extasiado! Parece a família buscapé chegando em Bervely Hills!
Estamos gostando muito, de verdade, mas eu ainda considero que estamos na fase do deslumbre, da lua de mel. Só o tempo dirá...
O tempo que ficaremos depende de muitos fatores, alguns bem concretos como a manutenção do posto de trabalho que nos ofereça condições de viver bem e um tráfico internacional eficiente do meu creme de pentear. Outros bem abstratos como a adaptação à cultura, ao inverno, à escola....
Antes de virmos combinamos fazer uma experiência de um ano letivo (sim, nosso tempo é o tempo das crianças), a partir daí reavaliaremos e decidiremos com mais clareza.
Por ora nosso cantinho está guardado no Brasil, fechadinho, bonitinho, no aguardo das cenas dos próximos capítulos.

Enfim, essa enrolação toda pra dizer que a gente vai  fazer o Zeca e deixar a vida européia nos levar e que pra quem já teve a coragem de vir, a coragem de voltar é fichinha!

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Avance Uma Casa.


Os Matos de Almeida não tiveram recepção muito agradável no aeroporto, como vocês viram no post anterior, mas contrariando o slogan do desodorante Axe, a primeira impressão não é a que fica. 
Resolvemos dar uma segunda chance para Portugal, afinal não estávamos dispostos a gastar quase 10 mil bolsoréis novamente em passagens pra voltar pra casa. 
A segunda chance foi a empresa de aluguel de carros e fomos tratados como os nobres que somos o que já nos trouxe novo ânimo!
Enfiamos nossas 348 malas e 2 crianças dentro de um Peugeot e partimos em busca de um teto e um banho.
Havíamos reservado 15 dias de hospedagem pelo Airbnb e estávamos com as visitas aos imóveis para aluguel todas marcadas. Tudo cronometrado, se uma peça saísse do lugar era ponte, mas pelo menos seria uma ponte européia. kkkkk (rindo de nervoso)
Chegamos ao apartamento da agradável Senhora Anabela, que nos recebeu muito bem e nos mostrou tudo. Uma decoração clássica, bem portuguesa, bem antiga e pareceu que a gente estava entrando no túnel do tempo. Cecilia, geração milenial, quase teve um troço mas se conteve e fingiu costume, inclusive graças a Deus.
Primeiro plot twist: Senhora Anabela provavelmente dará aula para Cecilia pois é professora da escola (pública, eu ouvi um amém?) onde ela vai estudar. 
Iniciamos as visitas aos imóveis com a ajuda de um consultor imobiliário que já nos auxiliava desde que estávamos no Brasil e fez as marcações, o Nelson, pessoa nota 10 que se colocar umas asinhas nele vira um anjo da guarda! 
Se não fosse o Nelson nos ajudando a resolver essa questão do aluguel em tempo recorde (nem ele acreditou na sorte que demos) a ponte européia teria sido uma realidade.
MÃE ESSE NEGOCIO DE PONTE É BRINCADEIRA TÁ!!??
No último dia do airbnb assinamos o contrato de aluguel e pegamos as chaves do apartamento definitivo. Parecia um jogo de xadrez, a gente quase tendo um pirepaque pra mover a ultima peça do jogo e tendo que teatralizar para as crianças que estávamos tão plenos quanto as pessoas do folheto das testemunhas de jeová.
Conseguimos um apartamento semi mobiliado (que sorte! - Isso é MUITO raro), conseguimos a dispensa do fiador (que sorte! - sorte nesse caso foi pagamento adiantado de vários aluguéis mais um contrato de trabalho em mãos, mais uma família fofa) e conseguimos pegar as chaves antes do início da vigência do contrato (que sorte! - Sorte nesse caso foi a lábia da mamãe aqui). 
Eu nem consigo acreditar que paralelamente a isso ainda tratávamos de conseguir os primeiros documentos e ainda sobrava tempo para turistar! Desafiamos todos os parâmetros de espaço-tempo da Física. 
Vencemos a primeira etapa. Ainda restam muitas.
Cecília e João estão prestes a iniciar o ano letivo, que aqui começa agora em meados de setembro e se der tudo certo, ganhamos muitas vidas no jogo da imigração! 




 
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