
Lembram de quando comecei a escrever neste blog? Claro que não. Mas eu lembro, pois eu sou a mãe dele. hehehe
A primeira postagem data de 11 de março de 2010, lá se vão 16 anos. Meu deus, quanto tempo eu dormi??
Há 16 anos eu tinha 28 anos. Uma conta rápida de cabeça e todo mundo já sabe que encontro-me com 40 e alguns poucos anos.
Vocês devem estar pensando: "-Ok, mas e daí?"
É agora que eu conto porque os reuni aqui.
Pois muito bem, para aqueles que estão agora na mesma faixa etária que eu, isso vai servir como uma terapia de grupo. Para os mais novos, tomem como se eu fosse uma viajante do tempo que voltou para contar a vocês como é que são as coisas ali no iniciozinho dos "enta".
Antes de mais nada você deve pesquisar no Youtube por vídeos do programa "Quer namorar comigo?" do Silvio Santos. Foque na parte em que ele pergunta a idade dos participantes. É chocante ver como os jovens da época pareciam tão mais velhos!
Galera, a gente tá vivendo uma época em que, regra geral, parecemos ter uns 10 anos a menos. Mas não me venham com a ideia de dizer que têm trinta e poucos, afinal o pessoal dos 30 está com cara de 20, logo seríamos uns trintões bem acabados, não queremos isso.
Nós fomos tomados por um discurso de urgência para parecer cada vez mais jovens, malhados, proteicos, repuxados, bem sucedidos.
Fora o fato de a gente ficar completamente atazanado das ideias com essa pressão, a negação do envelhecimento é também perder um pouco do brilho que só a experiência nos traz. É preciso ver a beleza do tempo e não apenas combatê-lo como uns Quixotes lutando contra moinhos de vento. Descansemos.
Mantive, intencionalmente, essa primeira parte da conversa centrada em nossa inenarrável beleza. Agora que já estamos felizes, é hora da descida da montanha russa. Apertem os cintos!
Embora a casca esteja brilhando, nosso organismo já dá sinais de desgaste. Nas mulheres o processo é particularmente enlouquecedor, já que passamos nessa fase por uma espécie de adolescência 2.0 veloz e furiosa. Os hormônios se viram contra nós, para depois nos abandonarem.
É uma batalha intensa acontecendo dentro do nosso corpo, diariamente, enquanto sorrimos e acenamos. O bagulho é hard, mas a medicina está muito avançada e já nos oferece soluções milagrosas, ao mesmo tempo em que somos bombardeadas pelos supostos perigos dessas soluções. É o famoso se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Há mulheres que fazem de tudo na busca por retardar esse processo, não julgo. No meu caso, sou mais naturalista (masoquista?) e prefiro ir sentindo aos poucos o sabor da derrota. Até quando vai durar essa filosofia? Provavelmente até o próximo grande terremoto de hormônios. Ok, terei tentado.
Os homens, embora ainda se sirvam da benevolência da sociedade, que é mais condescendente com a sua derrocada estética, já aderiram também à ideia de que também devem se cuidar. Eles já movimentam boa parte do mercado de estética, lotam academias, compram cremes. Quanto às suas questões de desgaste fisiológico, muitos já estão precisando de um combustível aditivado, não tá fácil pra ninguém. hehehe
Passando para outros temas, quando se trata da galera 40+ homogeneidade não tem lugar, as histórias de vida são muito distintas.
Na vida amorosa, alguns estão ainda tentando "engrenar" um relacionamento sério, outros estão casados há vinte anos. Alguns já se assumiram eternos solteirões, uns tantos já se divorciaram e, dependendo do trauma, nunca mais vão casar.
Nessa altura da vida, já vimos e ouvimos de quase tudo, é difícil se surpreender com alguma coisa. Estamos um tanto quanto céticos e desconfiados, mas também somos esperançosos, afinal ainda se tem, teoricamente, metade da vida para viver. Ainda acreditamos no amor, mas na abnegação que já atribuímos a ele, nem tanto.
Economicamente falando, a maioria já encontrou o seu "norte". Não viramos astros do rock, não ganhamos o Nobel, ninguém mais acredita que vai ficar rico, a menos que tenha caído no papo furado de coach ou jogue muito na loteria.
É claro que há muita gente iniciando carreiras ou mudando de área, mas agora, diferente do que era aos vinte e poucos, somos mais realistas quanto aos objetivos que pretendemos alcançar.
O maior desafio agora é olhar para a velhice, que está logo ali, à espreita. Tentamos ignorá-la, mas como? Se temos que começar a pensar na renda que teremos para não depender única e exclusivamente de uma prestação social - a famosa e quase sempre insuficiente aposentadoria.
Nessa faixa etária, os amigos são poucos em número, mas a qualidade compensa. A amizade deixou de ser aquilo que só se sustenta com contato e presença física, já que ser gerente da própria vida leva quase todo o nosso tempo. Aproveitamos festas e encontros como uns presidiários que ficaram 20 anos no cárcere.
Há aqueles que ainda não tiveram filhos, e, no caso das mulheres, o relógio biológico se transforma no coelho da Alice no País das Maravilhas e começa a gritar: - Tá atrasada!! - Tá atrasada!! Aqui em Portugal, ser mãe aos quarenta anos é perfeitamente normal, no Brasil já há muitos avós com essa idade.
Há os que estão com filhos adolescentes ou jovens já entrando no mercado do trabalho, enquanto lidam com crianças menores. São aqueles que tiveram filho cedo e depois bateu a coragem de ter mais um quando tinham ali seus trinta e poucos (aqui a carapuça encaixou igual a um lego).
Sofremos com a mudança de paradigma na criação dos filhos, pois temos que criar os nossos de maneira totalmente distinta da que fomos criados. Não há o privilégio de pegar o manual dos nossos pais pois ele está ultrapassado. Em contrapartida, a internet é o nosso guru, andamos às voltas com regras e mais regras de pedagogia e parentalidade. Às vezes cansa, mas a gente segue tentando fazer o melhor.
Somos uma geração muito interessante, estamos aqui nesse mundo muito virtual e robótico, mas sabemos muito bem de onde viemos. Esse papo de que a inteligência artificial vai dominar o mundo não nos pega tanto, pois já ficamos abismados quando vimos a internet nascer. Quando a gente chegou, isso aqui era tudo mato.
Já passamos por uma imensa revolução tecnológica, portanto o que vier a gente mata no peito (Se não nos matar antes. Por via das dúvidas a gente dá bom dia pro Chat GPT)
Tivemos uma infância livre, às vezes perigosa, mas completamente encantadora. A vida era difícil, mas passávamos pelas dificuldades um tanto quanto alheios. Sem a ostentação das redes sociais, havia pouco com o que comparar, todo o grupo levava uma vida mais ou menos igual. Ganhar roupa nova ou brinquedos só em datas comemorativas (e olhe lá) parecia perfeitamente plausível.
Quando nos rebelamos, na adolescência, o mundo parecia tão vasto, tão misterioso. Sabíamos pouco ou quase nada, conhecíamos o mundo pelo que víamos nos mapas, nas fotos de revista ou no globo repórter. Isso de certa forma podava nossa rebeldia.
Em total contradição com o mundo que encontramos na infância e na adolescência, hoje vivemos no modo automático, onde tudo é etéreo, raso, rápido. Parabéns pra nós, a única geração a viver de forma plena dois mundos completamente diferentes. Nos adaptamos ao novo com eficiência mas vivemos com saudosismo de outras épocas. Às vezes é preciso se segurar pra não soltar um "No meu tempo", mas é difícil não notar que o dedo já cansa quando temos que selecionar o ano de nascimento na roleta dos formulários eletrônicos.
O resumo da ópera é que para manter a sanidade, temos que buscar nossas raízes, mergulhar na nossa essência, é lá que reside quem de fato somos. Mas atenção, alguma loucura é sempre permitida, afinal ninguém é totalmente são em 2026.














