sexta-feira, 6 de março de 2026

Outras Vidas (Da série: Um conto pra chamar de meu.)


-Olá
-Oi!
-A gente já se viu antes?
-Acho que sim, você trabalha aqui?
-Não.
-Mas vem sempre aqui?
-Não.
-Engraçado, seu rosto me é tão familiar...
-O seu também!
-Será que a gente tem algum amigo em comum?
-É... Pode ser!
-Já sei! Acho que foi na festa do Pedro Paulo ano passado. Um festão! Você tava lá, não estava?
-Não, não conheço nenhum Pedro Paulo.
-Nossa, que estranho!
-Mas e aí, o que você anda fazendo?
-Como assim? A gente nem se conhece! Ou pelo menos eu acho que não...
-De onde vem esse interesse em saber o que eu ando fazendo?
-Não sei! Me deu vontade de perguntar!
-(risos) Mas e você?
-Eu o quê?
-O que você anda fazendo?
(risos)
-Sério. Isso está muito louco!
-Por quê?
-Porque eu estou morrendo de vontade de te contar os últimos 25 anos da minha vida!
-E eu querendo ouvir, por horas a fio, e te contar sobre mim também!
-Não seria mais fácil se a gente começasse sabendo o nome um do outro?
-É verdade! A gente nem perguntou o nome um do outro. É como se não precisasse!
-Isso, como se a gente já soubesse... Mas eu não sei, por mais que eu me esforce não me vem nenhum nome a memória que pudesse ser o seu...
-Eduardo. Esse é o meu nome. E aí, clareou alguma coisa?
-Não. E por falar em clarear, o meu é Clara. Maria Clara na verdade, mais eu odeio o Maria, só falei porque poderia te ajudar a lembrar...
-Hummmmm... Não. Nem Maria, nem Clara, nem Maria Clara! Nada!
-Onde você mora?
-Tá louco?! Eu não vou falar onde eu moro! Vai que você é um psicopata que inventou essa história de que me conhece só pra me perseguir?!
-Mas você está tendo a mesma impressão que eu!
-Verdade, esqueci! (risos) Mas fala você primeiro onde mora!
-Tá, eu moro em Santa Luzia. E você?
-Santa Luzia? Não sei nem pra que lado fica! Mas já tinha notado um certo ar caipira em você... (risos)
-Isso mesmo, é interior, duas horas de carro, não sei qual é a graça. Você é insuportável mesmo! Desde sempre.
-Você é que nunca aguentou brincadeira! E como assim, desde sempre?
- Olha, eu já to com medo disso, parece coisa de fantasma, de outra vida.
(Silencio)
- Ah, vá. Isso é ridículo, eu não acredito em nada disso.
- Eu muito menos, eu sou ateu, sabia?
- Olha eu não faço ideia de como, mas sim. Eu já sabia.
- Bem, está na minha hora, já passou aliás, vou indo, tchau.
- O quê?? Como assim, tchau? Isso vai ficar assim, por isso mesmo? 
- E o que é que você quer que eu faça??? Que te dê meu telefone?
- Sim! Qualquer coisa, email, facebook, sinal de fumaça, código morse. A gente não pode fingir que esta situação não existiu!
- Ok, eu nunca iria embora sem algum contato, você sabe como eu sou curiosa.
- Pior é que sei. Como se explica isso?
- Será que a gente se conheceu nessa vida ou numa outra?
- Olha, eu não sei, mas eu sinto que preciso te dizer uma coisa.
- Eu te amo
- Eu também te amo.

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